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Oscar Wilde, dramaturgo irlandês e figura central do movimento estético, escreveu Salomé em francês no início da década de 1890, num momento de intenso confronto cultural entre religião, império e modernidade. Embora Wilde fosse inglês de nacionalidade, a obra foi concebida em linguagem continental e publicada em Paris em 1893, com uma tradução para o inglês surgindo logo em seguida; sua recepção, marcada pelos embates em torno da moralidade, da sexualidade e da arte, contribuiu para a notoriedade duradoura da peça. A obra reflete a sensibilidade transnacional de Wilde e seu interesse por um teatro decorativo e simbolista, ao mesmo tempo em que se situa na atmosfera de fim de século de censura e escândalo que envolvia a cultura impressa da era vitoriana tardia. O cenário — a corte judaica de Herodes, o banquete, o terraço ao luar e a cisterna perigosa — exemplifica a fusão wildeana de material bíblico com imagens luxuriantes e exotizadas e uma estrutura pensada para uma teatralidade intensificada em vez do realismo convencional.
Sob sua superfície opulenta, Salomé investiga as dinâmicas do olhar, do poder e do desejo. A própria Salomé, apresentada como um objeto perigoso de fascínio, desestabiliza a autoridade patriarcal — Herodes, Herodias e o espectro de Iokanaan — de maneiras que prenunciam investigações modernistas posteriores sobre moralidade, espetador e transgressão erótica. O refrão quase cantado do trecho, a vivacidade das cores e das fragrâncias e a insistência em recusar o olhar revelam um teatro da visão entendido como instrumento político. A confluência do sagrado e do profano em Wilde, junto com o uso emblemático do luxo e do ritual, ajudou a catalisar correntes no teatro simbolista e no drama modernista incipiente e influenciou adaptações operísticas e literárias posteriores, incluindo a ópera Salomé de Richard Strauss e reelaborações subsequentes que continuaram a explorar a política do desejo e os limites da autoridade na arte.