Kate Chopin (1850–1904) destacou-se como uma voz singular na literatura norte-americana do final do século XIX, escrevendo a partir do cruzamento cultural de St. Louis e, crucialmente, dos ambientes crioulo e cajun da Luisiana. O Despertar foi publicado pela primeira vez em 1899 nos Estados Unidos, composto em inglês mas pontuado por frases em francês e por texturas sociais que refletem o mundo multilíngue de Nova Orleães e da Costa do Golfo. Publicado no fin de siècle, o romance foi moldado pelos debates contemporâneos sobre o papel das mulheres, o casamento, a sexualidade e a autonomia individual, e valeu‑se de técnicas realistas e naturalistas então correntes na ficção americana e europeia. Sua recepção inicial foi notoriamente hostil em muitos setores, resposta que contribuiu para a marginalização de Chopin em vida, mesmo quando ela continuou a publicar contos atentos à vida regional e às restrições sociais. O poder duradouro do romance reside em sua descrição implacável do despertar interior de uma mulher diante das pressões da respeitabilidade, da propriedade e da maternidade prescrita, traduzindo a transformação psicológica por meio de cenários sensoriais, observação social e um foco narrativo cada vez mais exigente. Chopin contrapõe as rotinas da vida doméstica burguesa ao apelo da autodefinição estética e erótica, usando o mar, a música e as sensações corporais como figuras recorrentes do desejo e da identidade, ao mesmo tempo em que expõe as coercões mais sutis do casamento e do julgamento comunitário. Lido em conjunto com seus contos, O Despertar ajuda a definir uma modernidade americana precoce pela disposição de tratar a subjetividade feminina e a agência sexual como matéria literária séria. Embora tenha sido por muito tempo negligenciado, tornou-se central para a crítica feminista do final do século XX e hoje é amplamente considerado um marco do realismo americano e um precursor importante das explorações modernistas da consciência e do gênero.