A novela Daisy Miller, de Henry James, foi escrita em inglês durante os primeiros e formativos anos do autor como expatriado americano, circulando entre os Estados Unidos, França e Grã‑Bretanha. Publicada pela primeira vez em 1878 na Cornhill Magazine e pouco depois em livro nos Estados Unidos (1879), pertence ao momento do final do século XIX em que a ficção anglo‑americana passou a tratar o viajar internacional e a sociedade cosmopolita como laboratórios para testar o caráter nacional, os modos e as suposições morais. James valeu‑se de seu conhecimento íntimo da cultura turística transatlântica — hotéis, estâncias e roteiros, como a passagem da Suíça à Itália — para montar encontros em que a informalidade americana se choca com as expectativas sociais mais codificadas dos europeus e dos americanos europeizados.
O poder da narrativa reside em sua ambiguidade habilmente controlada: a espontaneidade de Daisy pode ser lida como inocência, vulgaridade ou uma estratégia de autoconstrução, enquanto o “estudo” de Winterbourne põe a descoberto os hábitos interpretativos pelos quais uma comunidade vigia o comportamento feminino e converte a “leitura” social em juízo moral. O ponto de vista contido de James e sua ênfase na observação, na inferência e no erro de reconhecimento antecipam o realismo psicológico e a complexidade ética de suas obras posteriores, ao passo que a crítica à respeitabilidade e à violência reputacional tornou o conto um texto central nas discussões sobre gênero, vigilância social e a construção transatlântica da identidade americana na literatura. Sua influência duradoura vem de como transforma um enredo aparentemente leve de viagem e sociabilidade em uma investigação sobre a própria percepção — como padrões de decoro são produzidos, impostos e tragicamente confundidos com a verdade.