
Medida de Segurança
Estudo sobre a superação da sanção penal fundamentada na periculosidadeBy Regina JuncalLength10h 14m
About this audiobook
A medida de segurança é compreendida no ordenamento jurídico brasileiro como uma das espécies de sanção penal, ao lado da pena propriamente dita. Tal medida é considerada uma tutela penal para fins terapêuticos, cuja natureza seria preventiva e assistencial. Dessa forma, a medida de segurança é um dos polos de uma cisão no sistema de tutela penal, que se coloca da seguinte maneira: sistema de culpabilidade (imputabilidade/pena) e sistema de periculosidade (inimputabilidade/medida de segurança). A culpabilidade está vinculada a um ato passado, qual seja, o cometimento de um fato penalmente relevante. A periculosidade, por sua vez, orienta a medida de segurança para a prevenção do cometimento de fatos penalmente relevantes no futuro, de tal forma que o sujeito é desvinculado do seu ato ilícito passado (ainda que tenha sido esse o mote que ensejou a tutela penal terapêutica num primeiro momento).
Contudo, contemporaneamente, essa concepção "terapêutico-penal" vem sendo desafiada. A Reforma Psiquiátrica e a Luta Antimanicomial (que, mutatis mutandis, se positivaram na Lei Federal n.º 10.216/01), proíbem a construção de novos manicômios no Brasil e fazem preponderar o tratamento ambulatorial em detrimento da internação, em qualquer caso de intervenção relativa a portadores de sofrimento mental. Esse novo cenário traz a necessidade de se repensar criticamente o "periculosismo penal" e o consequente modelo de (não) responsabilidade penal que chancela a completa incapacidade do portador de sofrimento mental de dizer sobre o seu ato - de, em última instância, ser reconhecido como sujeito e como cidadão.
A crise da medida de segurança é posta sobre 2 (dois) macro-eixos: a) pelo saldo histórico do "tratamento" ofertado aos considerados loucos, pela Reforma Psiquiátrica e pela Luta Antimanicomial; b) pelo fato de se pautar em um prognóstico de periculosidade que, por sua própria natureza, será sempre estruturalmente impreciso - quando não fantasioso. Ademais, a periculosidade no discurso jurídico é tida como um atributo natural do portador de sofrimento mental infrator, o que atualizaria uma perspectiva de direito penal de autor.
Este trabalho passará em revista as dimensões mais relevantes e importantes sobre o tema (através dos macro-eixos supradestacados) e buscará verificar se é possível pensar outro modelo de responsabilidade, dentro ou fora do direito penal, sem que a tutela ou atenção estatal quanto ao portador de sofrimento mental que comete um ilícito penal seja concebida e orientada através do conceito de periculosidade. Repensar o atual modelo dentro das construções teóricas resgatadas neste trabalho implica pensar sobre a possibilidade de superação dos conceitos de imputabilidade e inimputabilidade. Uma das hipóteses aventadas pelo problema colocado seria justamente que a manutenção da cisão imputabilidade/inimputabilidade é um dos principais fatores que sustenta a medida de segurança no sistema penal brasileiro. Tal medida recai no referencial de direito penal de autor e inviabilizaria por completo o dever (e direito) de responsabilidade do portador de sofrimento mental.
Audiobook details
GenrePolitics and Government
Length10 hrs 14 mins
Narrated byListen with 1,000+ voices
FormateBook with Audio
Publish dateMay 10, 2021
LanguagePortuguese
Table of contents
1Introduction
154.3 O MODELO OPERACIONALIZADO PELO PAI-PJ
2UM - INTRODUÇÃO
164.4 O MODELO OPERACIONALIZADO PELO PAILI
3DOIS - A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE PERICULOSIDADE
17CINCO - CONSIDERAÇÕES SOBRE RESPONSABILIDADE DO PORTADOR DE SOFRIMENTO MENTAL E DESLEGITIMAÇÃO DAS MEDIDAS DE SEGURANÇA
42.1 BREVE HISTÓRICO
185.1 DA IMPUTABILIDADE
52.2 O TENSIONAMENTO DO PRINCÍPIO DA CULPABILIDADE PELA NOÇÃO DE RISCO
195.2 SUPRESSÃO DAS CONSEQUÊNCIAS JURÍDICO-PENAIS DOS ATOS DO LOUCO INFRATOR: ERRO DE TIPO
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62.3 A LEGITIMAÇÃO DO DIREITO PENAL DE AUTOR
205.3 MANUTENÇÃO DA MEDIDA DE SEGURANÇA COM REFERÊNCIAS NA PENA
7TRÊS - O SURGIMENTO DA MEDIDA DE SEGURANÇA NO BRASIL
215.4 A TRANSFERÊNCIA PARA A ESFERA CÍVEL
83.1 BREVE HISTÓRICO
225.5 MODELO ÚNICO DE RESPONSABILIDADE PENAL
93.2 A NATUREZA JURÍDICA DA MEDIDA DE SEGURANÇA
23SEIS - ANÁLISE DAS PROPOSTAS DE REFORMA E PROJETOS DE LEI QUE ALTERAM A LEGISLAÇÃO PENAL BRASILEIRA NO QUE CONCERNE À RESPOSTA JURÍDICA AO ILÍCITO COMETIDO PELO PORTADOR DE SOFRIMENTO MENTAL
103.3 A IMPOSSIBILIDADE DE RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL COMO VIOLAÇÃO DE DIREITO FUNDAMENTAL ÍNSITA AO INSTITUTO DA MEDIDA DE SEGURANÇA
246.1 PROPOSTA DE REFORMA DO INSTITUTO CARIOCA DE CRIMINOLOGIA
113.4 O CUMPRIMENTO DA MEDIDA DE SEGURANÇA NO BRASIL
256.2 PROJETO DE LEI DO SENADO N.º 513 DE 2013
12QUATRO - A REFORMA PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA
266.3 PROJETO DE LEI DO SENADO N.º 236 DE 2012
134.1 A LUTA ANTIMANICOMIAL E SEU DESENVOLVIMENTO NO BRASIL
276.4 PROPOSTA “REFORMA DA PARTE GERAL DO CÓDIGO PENAL: UMA PROPOSTA ALTERNATIVA PARA DEBATE”
144.2 A QUESTÃO DA ASSIMILAÇÃO PELO DIREITO PENAL DO REDIRECIONAMENTO DO TRATAMENTO DO PORTADOR DE SOFRIMENTO MENTAL NOS MOLDES DA REFORMA PSIQUIÁTRICA E DA LUTA ANTIMANICOMIAL
28SETE - CONCLUSÃO