O Manejo Do Discurso

O Manejo Do Discurso

By Daniel Figueira
Michael Caine
Listen with Sir Michael Caine™ and 1,000+ voices
Length2h 42m

About this audiobook

Objetivo neste trabalho oferecer possibilidades de se pensar resoluções às seguintes questões: como desconstruir o estigma da doença mental? Como produzir subjetivação no processo diagnóstico da clínica em reforma? Como maximizar a potencialidade da clínica do sujeito? Como evitar que a operacionalização do Movimento da Reforma Psiquiátrica se torne um novo instituído ou se transforme em modos mais sutis de segregação do 'louco'? Como transcender a cômoda posição de onipotente decorrente do status de doutor compartilhando este poder com o cliente que demanda atenção e cuidados? A relevância do tema resulta fundamentalmente da necessidade de se produzir estratégias alternativas para lidar com a questão da loucura que permita resgatar sua natureza intrinsecamente humana. Portanto, a importância está em poder contribuir para a elaboração de planos de ação profissional que deflagre um processo de desconstrução do discurso tecnocrata da doença mental, e em última análise colaborar por uma perspectiva que beneficie genuinamente a situação de toda uma sociedade alienada por uma instituição que, a meu ver, mais tem fabricado doença que esclarecido a miséria de seu próprio saber, o espetáculo de uma pseudociência com seus respeitosos fantoches e pantomima médica.

Audiobook details

GenrePhilosophy, Health and Wellness
Length2 hrs 42 mins
Narrated byListen with 1,000+ voices
FormateBook with Audio
Publish dateDec 8, 2018
LanguagePortuguese

Table of contents

1Daniel Figueira
26Depois de apresentadas e discutidas algumas das características que constituem a clínica do sujeito, passo agora à discussão de seu revés, a clínica diagnóstica. Alguns pontos merecem maior destaque à investigação e análise das características que to...
2A partir de uma perspectiva foucaultiana pode-se falar de duas tecnologias do poder, desenvolvidas nos três últimos séculos: o poder disciplinar e o biopoder. A noção de poder empregada aqui é a de domínio, de um sobre outro, entendido como uma relaç...
27O primeiro ponto se refere à atitude da equipe de enfatizar os aspectos considerados sintomatológicos do cliente em sua dimensão puramente objetiva, como por exemplo, se o mesmo tem ou não tem ouvido vozes sem incluir a dimensão subjetiva, ou seja, a...
3No caso do poder de soberania, o domínio ou controle do outro é representado pela figura de uma autoridade legitimada como soberano, como exemplo o rei. A lógica deste controle é o controle sobre a vida e sobre a morte, é o poder de fazer morrer ou d...
28Para ilustrar o que afirmo, apresento um exemplo de uma situação vivenciada por mim no contexto do grupo de recepção. Num dado momento do atendimento a uma cliente, esta afirma ter gostado da experiência que vivenciou de morar na rua e que não vê pro...
4Paralelamente a este acontecimento, entra em cena outra instância do poder, que não exclui o disciplinar, mas o integra de forma a criar novas tecnologias com a finalidade de exercer o controle numa escala global. Ela é chamada biopoder, pois sua lóg...
29Em outras palavras, o morar na rua pode representar o aspecto saudável da cliente para si mesma, e trabalhar clinicamente e contrariamente ao vislumbre desta possibilidade, por julgá-la a priori um sintoma psicopatológico, e, portanto de natureza con...
5Desta maneira apresentados tanto o poder disciplinar quanto o regulamentador (biopoder) é importante destacar um elemento que estará presente e transitando no exercício de ambos: a norma. Esta irá definir o que será chamado por Foucault de sociedade ...
30Outro exemplo que ilustra o que argumento se passa no filme Laranja Mecânica. O personagem principal do filme, Alex, em função de seu comportamento violento e socialmente reprovável é submetido a experimentos com uso de técnicas e métodos comportamen...
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6Para a resolução de tal paradoxo Foucault lança mão da noção de Racismo de Estado, ou seja, o meio pelo qual o Estado vai poder exercer seu direito de matar. Este racismo é definido pelo autor op.cit. da seguinte maneira: “se você quer viver é precis...
31Segundo o autor op.cit. “(...) É a constituição moral da sociedade que fixa em cada instante o contingente dos mortos voluntários. Existe, portanto, para cada povo uma energia determinada que leva os homens a matar-se. Os movimentos que o paciente ex...
7Uma análise crítica que se dispõe versar sobre as questões concernentes ao campo da saúde mental, que diz respeito à função da psiquiatria na manipulação do sofrimento humano, suscita o imperativo de iniciar-se pelas relações de poder que jaz a osten...
32As considerações que apresentei até o momento suscitam algumas outras indagações relevantes: o cliente não tem liberdade de apresentar algum traço em seu comportamento que não seja qualificado pela equipe de saúde mental como um consequente de sua co...
8Pode-se dizer que o movimento de apropriação da loucura como uma patologia a ser tratada, com isto “libertando” o louco do abominável Grande Internamento (tal como descrito por Foucault), não foi uma forma de libertar de fato o louco, mas de tornar s...
33Outro ponto que destaco como fator negativo no processo diagnóstico se refere à atitude técnica de reduzir o processo diagnóstico à mera categorização contida no CID-10, não observando as peculiaridades que tornam único cada cliente. Desta observação...
9O psiquiatra Thomas Szasz um dos maiores críticos da psiquiatria sugere que a noção de doença no corpo do saber psiquiátrico resulta num erro lógico e semântico. O autor op.cit. rebate a alegação de que os doentes mentais sofrem em função de suas doe...
34Neste tópico me detenho a discutir as possíveis variáveis contidas na ação de diagnosticar, e seus possíveis efeitos, tanto para a clientela quanto para a equipe de saúde mental, na dinâmica da clínica.
10Essa ilustração também alude outro fator importante, referente à recíproca implicação que há entre o organismo social e a instituição de poder no gerenciamento e manutenção de seus papéis na interação de um com o outro, na dinâmica do complexo social...
35A partir daí, sugiro que a noção de estigma, tal como proposto por Goffman (1982) e debatido por mim no capítulo anterior, apresenta extrema relevância na compreensão do fenômeno estrito que diz respeito ao movimento retrógrado da equipe de saúde men...
11Nesse sentido, a doença homossexualismo não se tornou a questão homossexualidade por força do acaso. E de modo verossímil procede em relação à manutenção da noção de doença mental dentro do campo psiquiátrico. No primeiro caso, esteve em jogo uma con...
36Em ambas as situações ilustradas, as características específicas apresentadas pelo cliente são avaliadas e analisadas em função de um valor diagnóstico prévio estabelecido para o mesmo. Esta reflexão provoca questões que considero pertinentes: Como s...
12O Movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira é definido, segundo Uhr como um conjunto de transformações nos campos teórico-conceitual, jurídico-político, técnico-assistencial e sociocultural, iniciados nos fins da década de 1970, pelo questionament...
37Refletindo sobre estas questões, numa visão cognitivista, a partir da ideia de estereótipo que, segundo Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999) definem como “crenças sobre características pessoais que atribuímos a indivíduos ou grupos”, nós podemos infe...
13Suas mudanças e transformações no campo assistencial se caracterizam, sobretudo, a partir de 1987, pelo processo de desinstitucionalização, que compreende a desconstrução e superação do manicômio, assim como seu modelo baseado em conceitos e práticas...
38A respeito das implicações da autorotulação, Corbisier alerta que, “as pessoas que procuram o hospital já vêm muitas vezes psiquiatrizadas. Já se denominam “deprimidas”, “bipolares”, com o agravante de descreverem as doenças não como estados provisór...
14Apesar de o Movimento de Reforma Psiquiátrica Brasileira apresentar uma riqueza material indiscutível a respeito de suas propostas proclamadas e defendidas, penso que toda tentativa de uma Reforma que rejeite destruir pressupostos equivocados estará ...
39A partir das considerações que apresentei até aqui, defendo que se torna evidentemente necessário à equipe de saúde mental um constante movimento orientado pela máxima socrática só sei que nada sei, que adaptado ao contexto da clínica do sujeito se p...
15A partir dessa provocação mais especulativa do que comprobatória a respeito dos possíveis atravessamentos institucionais contidos no Movimento de Reforma Psiquiátrica Brasileira assinalo a necessidade contínua de autoanálise pelos agentes que compõe ...
40A esta citação acrescento uma sugestão que gostaria de ressaltar. O saber psiquiátrico empregado em sua negatividade apresenta uma função muito mais de reafirmação do poder e da posição social do status de doutor do agente técnico, do que uma função ...
16Uma gama de variáveis pode ser estabelecida, a partir desta relação, na interação de si próprio com o outro, seja o outro considerado um indivíduo ou grupo social, familiar ou não, ou ainda portador do mesmo estigma. O fato de o estigmatizado doente ...
41Retomando Foucault (2000), sugiro que a relação entre o cliente e o agente de cuidado é mediada por um valor de autoridade consagrado pela posição de poder ocupado pelo agente técnico em relação ao cliente. Nesse sentido, a singularidade do agente, a...
17O arremate que torna evidente tal justificativa são os possíveis ganhos secundários advindos desta condição, porém este fato não segue esta direção em todos os casos. Prosseguindo, se estar na aparente condição de doente mental, por exemplo, signific...
42O que pretendi aqui demonstrar primeiramente, é que se por um lado se tem um agente técnico apercebendo e interpretando a singularidade do cliente através de um valor patológico que lhe atribui mediante o diagnóstico, por outro lado se tem reciprocam...
18A posição apresentada neste primeiro capítulo em relação à instituição psiquiátrica, suas práticas e saberes, por mais que possa dar a entender uma atitude de acusação ou abominação das mesmas, reflete apenas uma posição que objetiva levantar questõe...
43A partir de agora se procurará demonstrar que poder não é sinônimo de mal, mas da forma como ele é conduzido, de modo que sua condução pode produzir algo de bom. Algo efetivamente em favor das pessoas a quem desejam e podem se beneficiar da assistênc...
19Todas as questões, análises e reflexões apresentadas e discutidas neste primeiro capítulo, já se mostram suficientes para dar prosseguimento ao próximo capítulo no qual tratarei sobre as características que fundam a clínica diagnóstica e a clínica do...
44A ideia de poder tratado aqui não é de uma coisa que possa se encerrar numa figura, como a do especialista. Trata-se, porém de algo que é praticado, exercido por alguém em relação a outro. Este alguém que o pratica não tem posse do poder, assim como ...
20Diagnóstico, segundo o dicionário Aurélio é definido como o conhecimento ou determinação de uma doença, pela observação de seus sintomas. Como já discutido no capítulo anterior sobre a noção de doença, esta definição de diagnóstico se aplica à medici...
45A ideia de que o paciente é destituído de poder só é possível na medida em que o próprio paciente renega exercer o poder contra o médico, calando-se, submetendo-se ao mesmo, pior, conduzindo o poder contra si mesmo ao reproduzir a lógica instituída q...
21A positividade da clínica psiquiátrica nos remete primeiramente a refletir sobre todo o estigma vinculado às representações sociais da doença mental, a fim de atenuar os possíveis impactos prejudiciais que possam ser desencadeados no momento em que é...
46O que se procurará demonstrar a partir de agora é que existe a possibilidade do paciente tomar parte no exercício do poder, não no sentido de o médico emprestar-lhe um poder que nem mesmo detém e nem o pode, mas do próprio paciente reconhecer-se como...
22Desta orientação, destaco dois pontos a serem analisados. Primeiramente, que o processo de ressignificação realizado pelo cliente se configure numa constante produção de saber acerca de suas virtuais possibilidades e limitações frente às dificuldades...
47Objetiva-se abolir o discurso da doença mental com seu deprimente vocabulário psicopatológico e a distinção preconceituosa entre pessoas mentalmente enfermas e mentalmente sadias, ou seja, destruir o discurso do sujeito criando em contrapartida um su...
23A partir da citação do autor op.cit. o que pretendo apontar, me valendo dos termos “desesquizofrenizar” e “despsicotizar”, não é a negação de suas respectivas categorias, mas antes uma estratégia clínica que consiste em subordinar a rotulação diagnós...
48A meta é de uma atuação comunitária, ao invés de ser em serviços de saúde mental ou consultórios particulares, que apenas ostentam uma função alienante. Em síntese, uma atuação não com o intuito de oferecer psicoterapias ou narcotizantes, ou dizer o ...
24Em síntese, esse manejo mais rigoroso tanto no momento de informar o diagnóstico como nos seus desdobramentos, a meu ver, envolve uma atitude da equipe de implicar o cliente no seu processo diagnóstico, a fim de deslocá-lo de uma posição de paciente ...
49Conforme havia indicado, numa relação de cumplicidade, não de domínio. O manejo do poder implica assim no manejo do discurso, ou seja, daquilo que o especialista fala do paciente e sobre ele. Discurso que escraviza, mas que pode libertar. Que mortifi...
25Para dar fechamento a este tópico, apresento um exemplo de uma situação ocorrida no grupo de recepção no qual participei em que a positividade no processo diagnóstico se fez presente. Tratou-se de um atendimento de retorno ao grupo de recepção, no qu...
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