
Length4h 48m
About this audiobook
O Longa Corda da Vida é uma saga de fé, luta e memória, narrada pelas vozes ancestrais de um griô e de seu filho. Guardadores do que não pode ser esquecido, eles puxam do silêncio a longa corda que une os destinos de africanos sequestrados e espalhados pelo Brasil do século XIX. Em meio ao horror da travessia e às dores da escravização, uma força invisível protege os personagens: a doçura de Oxum consola os corações partidos; Xangô clama por justiça. Ogum abre os caminhos da sobrevivência; e Exu, senhor das encruzilhadas, guia os reencontros improváveis. Nas palavras dos guardiões da memória, Eritan e Valentino, a dor do sequestro, a ruptura de famílias e a luta por dignidade ganham corpo. Dois jovens, arrancados de uma aldeia de Oyó na Nigéria, chegam ao Porto de Valongo no Rio de Janeiro e são escravizados em Minas Gerais. Ali, como ferreiros, forjam não apenas ferramentas, mas também o caminho para a liberdade. Em outro rumo, duas jovens mulheres, desembarcadas em Salvador, enfrentam uma trajetória de venda e sofrimento em uma fazenda de plantio, fumo e latifúndios do Sudeste. Mesmo em meio à violência e às distâncias, os personagens mantêm viva a esperança. Com a ajuda silenciosa dos tropeiros, traçam caminhos improváveis para se reencontrar – reafirmando que nem o cativeiro foi capaz de romper os laços de amor e identidade. Nas mãos do griô e de seu filho, essa longa corda da vida – tecida com dor, fé e resistência – é puxada de volta à luz, para jamais ser esquecida
Audiobook details
GenreSelf-Help
Length4 hrs 48 mins
Narrated byListen with 1,000+ voices
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Publish dateJul 4, 2025
LanguagePortuguese
Table of contents
1Capítulo 1 – A Emboscada
2A estória que vou contar aconteceu, e dela vocês poderão tirar proveito para saber o que é o amor. Assim iniciou o griô.
3Vocês frequentam a escola há mais ou menos doze anos?
4Vocês são negros, brancos e mulatos!
5Ah! Muito bem! A estória que vou lhes contar diz respeito à vinda dos africanos para o Brasil, muito antes do nascimento dos meus bisavôs.
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6Vamos nos imaginar atravessando o oceano Atlântico e o desembarque acontecendo no litoral africano.
7O antigo Reino de Oyó se localizava no sudeste da atual Nigéria.
8Oyó!
9Conta-se que os filhos do rei Oduduwa, de Ifè – um reino da etnia iorubá –, receberam coroas de contas e franjas que lhes cobriam o rosto e saíram terra afora para fundar novos reinos. Oraniã, filho de Odùduwà, fundou o Reino de Oyó. No século XV, os portugueses chegaram em busca de ouro e de pessoas para submetê-los à escravidão...
10Calma! Esqueceram que atravessamos o Atlântico e estamos ao norte do golfo da Guiné? O griô retomou a estória. Os reis, tanto de Ifé como de Oyó, tiveram muito da sua gente traficada para o Brasil.
11Xangô é um orixá! Explicou o griô.
12Os orixás são ‘entidades’ do candomblé e personificam elementos da natureza, cada adepto tem o seu orixá, ou seja o seu patrono.
13Sim! Cujo deus é Olorum.
14Imaginem! O deus dos iorubás, chamado de Olorum, por sua vontade habitou a Terra e o Orum, mundo sobrenatural, onde estão os orixás e os eguns humanos que, após a morte, vão para lá.
15O local de culto é conhecido como Candomblé – palavra originada do Candom, uma espécie de tambor, presente nos cultos –. A estória que estou contando não é de origem da religião dos iorubás, mas das intervenções de orixás na época em que africanos foram trazidos para o Brasil.
16Conheço essa estória contada por meus avôs e bisavôs. Eles diziam que na área de florestas e savanas, onde se localiza os países Nigéria, Benin e Togo, viviam os iorubás, e um de seus reinos foi Oyó, que teve uma organização militar, incluindo uma cavalaria dividida em leve e pesada. A cavalaria pesada, com cavalos maiores e importados, estava armada com lanças pesadas e, também, com espadas. A cavalaria leve, com pôneis, lanças e arcos de arremesso.
17Concordo com você, em parte. Também havia populações nos milhares de reinos que foram fundados, e vários deles tiveram reis que, após a morte, foram divinizados, como Xangô, rei de Oyó.
18Ele lutou e cobrou de Xangô, seu protetor, o porquê daquela desgraça. Dominado, tomaram o seu cavalo e ataram suas mãos. Após caminharem um tempo pela savana alcançaram um outro grupo já capturado.
19Assim inicia-se a estória de Ologum. Capturado por traficantes, não conseguiu chegar a sua aldeia, a história se repetia: o seu pai morreu lutando contra as forças do reino do Daomé.
20Ayomide, que significa “minha alegria chegou”, a prometida de Ologum, estava aflita diante da sua demora..
21É costume de vários povos, inclusive, entre os africanos, o aceite pelo chefe da família daquele que casará com a sua filha. E continuou. Ologum, mesmo acostumado a situações extremas, mostrou-se exausto e desiludido. Há muito sabia das capturas de seu povo, mas, como cavaleiro, sentia-se resguardado, até que o destino lhe reservou a perda da liberdade.
22O céu escuro traduzia maus presságios. Os ventos e a tempestade, manifestações de Iansã, orixá de temperamento impetuoso, expressaram insatisfação. Iansã sentia as dores de Ayomide, quando Ireti, cujo nome é sinônimo de esperança, chegou de sua aldeia avisando: “Levaram Ologum! Levaram Ologum!”
23Todos passaram a clamar pela sorte do cavaleiro. Ayomide, em desespero, lastimou:
24“Nko ni ri yin mo! Nko ni ri yin mo!”
25“Nunca mais vou vê-lo! Nunca mais vou vê-lo!”
26Na aldeia, uma súplica aos orixás pedia para salvar Ologum.
27As trilhas da savana, passando por aldeias, escaramuças e perseguições, resultaram no aprisionamento de mais africanos e Ologum, em fila com os outros capturados, mostrava-se abatido e desencorajado. Os guerreiros do Daomé, reino de origem mítica, acreditavam que o primeiro rei era meio homem e meio leopardo, fato que tornava seus soldados perigosos e ferozes. Assim conta a estória.
28O mito permitiu à dinastia superar até o poder do Reino de Oyó. Aliados aos europeus, os guerreiros do Daomé tornaram-se fortes traficantes de escravos.
29Na próxima sexta continuaremos!
30Capítulo 2 – A Travessia
31E káàró! Ele cumprimentou, chamando atenção de todos.
32Bom dia!
33Vamos voltar à estória.
34Jẹ́ kí a padà sí ìtàn
35Recordam-se de Ologum? Capturado a caminho da sua aldeia em Oyó, juntou-se a mais trinta e cinco aprisionados pelos guerreiros do Daomé. Em fila, ligados um ao outro por corda, chegaram a Ikeja. O destino era Badagry, a cinquenta e dois quilômetros, onde pisariam pela última vez em solo africano.
36Ologum, ligado a um fon, outra etnia da região, abatido, mas lúcido, avaliava as possibilidades de fugir, enquanto os outros sentiam-se entregues à própria sorte. Sujeitavam-se aos gritos daqueles que os capturaram, pondo-se a caminhar.
37Já à noite, o tempo estava fresco e as estrelas iluminavam o caminho quando Ologum, não se sabe como, livrou-se da corda e embrenhou-se na mata.
38Cavaleiros do Daomé, em galope, rapidamente alcançaram Ologum. Dominado, ataram suas mãos amarrando a corda à cela de um dos cavalos. Ologum, para não ser arrastado, seguiu o ritmo da marcha do animal.
39Pouco durou o sofrimento de Ologum, pois o grupo alcançou o acampamento às margens do rio Ogum e ali passaram a noite. Pela manhã, os cativos, distribuídos em três canoas, seguiram para Badagry. Antes que chegassem, no meio do caminho, dois negros da etnia igbos lançaram-se ao rio, preferindo estar com os seus ancestrais.
40Todos oravam quando foram surpreendidos por um forte vento e uma chuva insistente. Foi uma manifestação dos orixás? Os dois afogados seriam descendentes de ancestrais divinizados por seus feitos?
41De repente um guarda, apontando-lhe a lança, ordenou que se assentasse. Ologum tentou enfrentá-lo, mas um outro o dominou. Ele se aquietou, repetindo:
42“Nítorí emi”.
43Na vida estamos sempre diante de dificuldades que são consequências de nossas atitudes. Ologum se considerava capaz de se livrar de tudo pelo poder e pela força, por ser cavaleiro do Reino de Oyó. As palavras de Eritan transmitiram sabedoria. Exu, orixá da comunicação, decidiu intervir para lhe mostrar que a força e o poder que julgava ter não eram absolutos.
44Era uma manhã chuvosa em Badagry. Ologum e os outros observavam uma movimentação de guardas e a presença de dois traficantes que ordenavam que negros e negras se levantassem, apontando para uns e outros com a certeza do que queriam. Ao se aproximarem do grupo de Ologum, pelo seu porte e as três marcas em cada lado da face, o identificaram como um iorubá, e o bracelete no punho direito mostrava também ser um ferreiro. Ologum pertencia a uma família de ferreiros, atividade tida como mítica por ser associada a um conhecimento adquirido em esferas não-humanas, um saber mágico na transformação do minério em ferro.
45A estratégia dos traficantes era formar grupos com diferentes etnias para dificultar a comunicação e rebeldia, tanto em terra como nas embarcações. Um dos traficantes apontou para Ologum enquanto um guarda, com uma faca, separou-o do fon, forçando-o a entrar na fila. Em pouco tempo, a fileira dos escolhidos contava com mais de cinquenta homens e mulheres, todos levados para a marcação. A marca era feita com ferro quente mergulhado em azeite de dendê para não grudar sobre a pele.
46Era noite quando se iniciou a embarcação. No caminho do cais havia um poço no qual todos os negros eram forçados a tomar a água, cujo efeito, diziam, era para perderem a memória. O ano era 1830, o navio Baiana, atracado no porto de Badagry aguardava a terceira carga para o Rio de Janeiro, no Brasil. Antes esse navio esteve em Porto Novo. Acreditem! Lá o Baiana recebeu cativos de um entreposto, fundado por Gbego, um iorubá escravizado, batizado como João de Oliveira pelo seu ‘dono’, que vivia em Recife.
47Vamos encontrar africanos escravizados ou livres se dedicando às mais variadas atividades. O griô foi enfático. Quando a professora Abigail me convidou, uma das razões de estar aqui é para esclarecer sobre as estórias de vida dos povos africanos. Não podemos tratá-los como se fossem coisas ou ferramentas de trabalho.
48As embarcações esperavam a última carga para navegar em mar aberto e alcançar o Baiana. Pelo sacolejar delas, a quem pudesse assistir não passaria despercebido o tormento dos cativos diante das altas ondas. Subindo uma escada de cordas e depois uma rampa, vários africanos ficaram assustados com o tamanho do navio. Os embarcados foram levados diretamente para os porões.
49No Baiana, dois dos porões destinavam-se à carga de cativos. Considerado de porte médio, o primeiro porão já estava sobrecarregado de prisioneiros. No segundo, foram alojados os que chegaram. Percebia-se uma certa pressa do capitão e dos traficantes devido à perseguição da marinha inglesa que, desde a primeira década do século XIX, passou a restringir o tráfico. O capitão do Baiana já havia sido informado da presença de ingleses na região, daí a preocupação em zarpar.
50O Baiana começou a navegar e um temor dominava os embarcados. Ologum, dado por vencido, olhava por uma fresta e procurava respirar ar puro. Recordava de Ayomide. Havia se separado dos cavaleiros de Oyó para visitar a aldeia, sua família e estar com Ayomide. Imaginava-a embelezando-se – linda, com as unhas dos pés e das mãos pintadas! Seus cabelos penteados para cima, brincos e anéis de coral e uma saia enrolada em torno da cintura compunham a sua beleza –. Lembranças distanciavam Ologum daquele ambiente escuro.