A Eneida de Virgílio (Aeneidos) é um épico latino composto nas últimas décadas do século I a.C., sob o predomínio de Augusto, e deixado sem revisão na morte do poeta, em 19 a.C. Públio Virgílio Maro, já celebrado pelas Églogas e pelas Geórgicas, voltou-se com este poema para a grande forma literária mais associada à autoridade cultural grega, moldando um épico nacional romano capaz de falar ao reordenamento político e à autodefinição ideológica do início do Principado. Escrito em hexâmetro dactílico e circulado pouco depois da morte de Virgílio graças aos cuidados editoriais de seus colaboradores, o poema situa as origens de Roma num continuum mítico que liga a queda de Troia ao surgimento de um novo poder mediterrâneo. A Eneida narra a jornada divinamente incumbida de Enéias de Troia à Itália, vinculando a perda pessoal ao destino coletivo por meio da virtude central da pietas e das tensões recorrentes entre destino, antagonismo divino e agência humana. Funde modelos homéricos — a errância odisséica e os combates da Ilíada — numa meditação distintamente romana sobre a construção da nação, o custo moral do império e a transformação do sofrimento em propósito histórico, enquanto episódios (notadamente a tempestade e o apelo à Musa no Livro 1) encenam a preocupação do poema com a memória, a causalidade e a fragilidade dos planos humanos diante do desígnio cósmico. A sua influência foi fundamental para a literatura europeia e o pensamento político posteriores, oferecendo um modelo para a forma épica, a poética intertextual e as narrativas imperiais desde a Antiguidade Tardia até Dante, Milton e além, ainda que continue a suscitar atenção crítica pela sua ambivalência em relação à violência, à conquista e à retórica de uma história providencial.