
O Mundo Da Revista Realidade (1966-1968)
By Vaniucha De MoraesLength6h 44m
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Na historiografia da imprensa brasileira a revista Realidade é considerada um marco em termos de ousadia na linguagem e na abordagem temática. Este livro se concentra no auge da publicação, entre abril de 1966 e dezembro de 1968. A obra busca compreender a revista por meio dos fatores que compuseram sua política editorial. O caráter revolucionário da revista Realidade é atribuído a uma conjunção de fatores, notadamente, o contexto social e histórico, a sinergia da equipe de redação e a formação intelectual dos jornalistas envolvidos no processo de produção, especialmente nos seus anos iniciais.
Audiobook details
GenreBiography and Memoir
Length6 hrs 44 mins
Narrated byListen with 1,000+ voices
FormateBook with Audio
Publish dateSep 5, 2023
LanguagePortuguese
Table of contents
1Introduction
2DEDICATÓRIA
3AGRADECIMENTOS
4INTRODUÇÃO
51 A REALIDADE DO MUNDO>
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61.1 UMA PUBLICAÇÃO REVOLUCIONÁRIA: VISÃO PANORÂMICA
71.2 O CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DEFLAGRADOR DE REVOLUÇÕES NO JORNALISMO E NAS ARTES
81.2.1 IMAGINÁRIO E CONSTRUÇÃO SOCIAL DA NOTÍCIA EM REALIDADE
91.2.2 INTERTEXTUALIDADES E INTERSUBJETIVIDADE: OS DIÁLOGOS COMO FORMAS DE EXPRESSÃO CONTEMPORÂNEAS
101.2.2.1 A CONTROVERSA INFLUÊNCIA DO NOVO JORNALISMO
111.2.2.2 UMA SINTONIA LATINO-AMERICANA
121.2.2.3 NO JORNALISMO COMO NO CINEMA
132 O MUNDO DE REALIDADE: O MODUS OPERANDI DO JORNALISMO DA EQUIPE INICIAL
142.1 O CONTEXTO DA IMPRENSA BRASILEIRA: UMA REFORMA GRÁFICA E EDITORIAL NOS JORNAIS
152.1.1 DA REVISTA DE DOMINGO À EDIÇÃO PILOTO
162.2 CONCEPÇÃO DE UMA LINHA EDITORIAL
172.3 ELEMENTOS DE TRANSGRESSÃO
183 OS JORNALISTAS: O PAPEL DOS INTELECTUAIS DA EQUIPE PRECURSORA NA ESTRUTURAÇÃO DA LINHA EDITORIAL
193.1 DA TRADIÇÃO DA INTERFACE JORNALISMO E LITERATURA
203.2 A IMANÊNCIA DA FORMAÇÃO INTELECTUAL DOS JORNALISTAS NAS REPORTAGENS DE REALIDADE
214 CONSIDERAÇÕES FINAIS No transcorrer deste trabalho, procurou-se avaliar a linha editorial da revista Realidade, tendo como orientação a proposta de investigar os possíveis fatores que predominaram na composição de uma política editorial considerada revolucionária na literatura existente sobre história de imprensa no Brasil. A publicação, considerada uma referência em termos de reportagem, encarnou o espírito de um jornalismo combativo e denunciador dos problemas sociais, ainda que tenha nascido em “berço de ouro”, publicada pela então iminente Editora Abril, na ocasião começando a construir o seu império editorial, até pouco tempo atrás um dos maiores da América Latina. O nascimento em uma empresa que poderia dar suporte a um projeto tão ousado para a época, aliado ao contexto e também ao entrosamento estabelecido pela equipe inicial (1966-1968), indicaram em um primeiro momento terem sido determinantes para o sucesso daquela que foi a primeira empreitada da Editora Abril na seara de revistas de informação geral. No entanto, esses fatores apenas concederiam as pistas iniciais para as indagações que haviam motivado inicialmente a pesquisa. Por que Realidade é considerada um marco no jornalismo nacional? Por que é categorizada como a publicação emblemática de um estilo combativo e libertário, sendo até mesmo considerada uma matriz da imprensa alternativa da década de 1970? Teria sido esta publicação uma “transposição mecânica” de uma publicação estrangeira devido a qualidade editorial por ela apresentada? A ousadia da produção textual seria justificada pelo fato de Realidade ser uma espécie de representante do Novo Jornalismo em território nacional, como muito se conjecturou em alguns dos trabalhos realizados sobre o tema? A que se pode atribuir a concepção da linha editorial desta revista? A investigação sobre tais indagações motivaram a realização do presente trabalho. Em virtude dos objetivos estabelecidos, buscou-se então confluir a análise documental feita nas edições correspondentes ao auge da publicação, de abril de 1966 a dezembro de 1968, e uma pesquisa de campo efetivada por intermédio de entrevistas com os jornalistas remanescentes da equipe inicial. O método de Análise Pragmática da Narrativa e os procedimentos da História Oral resultaram em uma combinação satisfatória no percurso de estudar os fatores constitutivos da linha editorial da revista. Tal diretriz significou realizar um estudo de caso que tivesse como fonte de pesquisa não somente o material impresso, já editado, concluído e publicado, mas também contemplar o “pensamento vivo” referente à história dessa publicação, notadamente os seus jornalistas produtores. A Análise Pragmática da Narrativa foi particularmente propícia no sentido de evidenciar um atributo importante da publicação, no caso, a opção do corpo editorial em não escamotear a presença do autor, uma figura que, por isso, tornou-se flagrante em cada peça jornalística. Tal método de pesquisa documental concede ao texto jornalístico status de narrativa, atribuindo-lhe as qualidades inerentes à estrutura tradicional da narrativa – o que inclui remissão a um arsenal de referências culturais já sedimentadas no imaginário social, utilização da descrição de cenários, diálogos e uso de personagens que encarnam sentimentos e condições humanas universais – sendo também um método que posiciona o jornalista no devido lugar de autor, com todas as contingências que essa condição encerra. Por sua vez, a pesquisa de campo, calcada nos procedimentos e diretrizes da História Oral, acrescentou ao estudo o esclarecimento das questões que surgiram no transcorrer das leituras das edições selecionadas e, dessa forma, os depoimentos colhidos com os jornalistas remanescentes da revista tornaram-se cruciais para o entendimento da linha editorial de Realidade a partir dos bastidores da redação. As hipóteses acerca das decisões editoriais foram prontamente esclarecidas por fontes que participaram diretamente no processo de produção da publicação. As constatações a respeito da formação cultural dos entrevistados salientaram, assim, em um segundo momento da pesquisa, a importância da bagagem cultural de cada indivíduo participante, bem como indicaram o resgate de uma tradição cultural brasileira de jornalistas e escritores, a qual inspirou os realizadores de Realidade. As reminiscências dos jornalistas levaram-nos a nomes como João do Rio, Euclides da Cunha e Lima Barreto, trabalhadores da palavra escrita e impressa que, muito antes do lançamento da referida revista da Editora Abril, já lançavam mão de ferramentas similares, tais como as pesquisas de imersão e o uso da primeira pessoa do singular no processo de construção da reportagem. Com o acervo de informações em mãos, advindo da pesquisa documental e de campo, buscou-se estruturar um formato de apresentação para contar a trajetória da edificação da linha editorial da revista. Com essa exposição, pretendeu-se demonstrar uma perspectiva de análise que partiu do macrocosmo, simbolizado pelo contexto sócio-histórico referente à época de produção da revista, no capítulo inicial; considerou o microcosmo formado pelo trabalho da equipe precursora, assunto central do segundo capítulo; e, por fim, contemplou-se o intelectual, o jornalista produtor da publicação, como mola propulsora na tomada de decisões constituintes do que convencionamos chamar a fórmula-Realidade. Esta fórmula caracterizou-se pela ousadia na abordagem de temas impactantes para o período e pela linguagem centrada no estilo dos autores. Mas, também, foi marcada pela empatia e pelo envolvimento direto, intenso, de seus repórteres com os assuntos e personagens que protagonizaram as várias estórias que Realidade contou no transcorrer de seus três primeiros anos. Apurou-se, igualmente, nessa pesquisa, que a linha editorial assumida estava pautada na utilização de extensas reportagens, plenas de riqueza poética e literária advindas de pesquisas de imersão, qualidades responsáveis por tornar aquela publicação uma referência memorável aos seus leitores e àqueles que participaram da experiência de integrar sua redação. A busca pelo desvelamento das questões motivadoras iniciais alcançou resultados obtidos da percepção dos porquês do caráter inovador da revista e no entendimento da repercussão do modus operandi da equipe pioneira no trabalho editorial publicado. No transcorrer deste estudo, conseguiu-se apurar que a peculiar reunião de profissionais forjados por referências culturais das mais diversas, mas sobretudo brasileiras, proporcionou-lhes o compromisso com o ideal de trazer à tona a vida de brasileiros “comuns” e anônimos – fatores determinantes para fórmula-Realidade. Assim também, esses internalizaram e vivenciaram as aspirações de mudança social da inquieta intelectualidade da década de 1960, cujos membros da equipe inicial integraram. Enfim, os fatores relacionados ao referido grupo resultaram na constituição de uma publicação que se tornou uma manifestação inconteste das personalidades envolvidas em seu processo produtivo. Por isso, pode-se considerar uma consequência natural que a constituição de um grupo cujos membros embasavam-se na luta pelas liberdades também se organizasse de forma libertária. Uma equipe combativa na forma de questionar as estruturas sociais do poder também praticou um jornalismo contestador. Essas qualidades emergiram das lembranças dos jornalistas de Realidade e puderam ser percebidas no estudo das edições da revista das quais se extraiu o que categorizamos como elementos textuais e temáticos de transgressão, a fim de estabelecer parâmetros para avaliação do seu teor revolucionário. Não obstante, características como voz autoral, texto literário, reportagens-conto, pesquisas e textos de profundidade, levantamento de assuntos de importância social não foram atributos exclusivos da revista Realidade. Como foi avaliado nesta pesquisa, tais diretrizes de trabalho remetem às obras de várias figuras emblemáticas da história do jornalismo e da literatura, de Machado de Assis a Monteiro Lobato, intelectuais que serviram como fonte de inspiração aos jornalistas da publicação. Por isso, podemos inferir que a forma de produção que impulsionou os pioneiros de Realidade estava ancorada em uma postura ao mesmo tempo crítica e fraterna diante das questões humanas mais prementes e também baseada em um trabalho que concedia à reportagem status de gênero literário. Por meio das reflexões surgidas ao longo desse estudo, podemos concluir que a fórmula-Realidade não se trata de um estilo jornalístico restrito a uma época em que os ideais revolucionários estavam em voga, ou a um período em que o mercado editorial de revistas estava mais propício para publicações como Realidade, mas de uma postura do profissional de imprensa em relação às responsabilidades e possibilidades imanentes a sua profissão. No intercurso desse estudo, percebemos a nostalgia que envolve a revista Realidade, como se a reportagem estivesse reservada a um tempo longínquo e sem chances de retorno devido à forma de organização dos meios de comunicação impressos vigente da atualidade. Dessa forma, os profissionais das novas gerações estariam fadados ao jornalismo estilo “linha de montagem”, meramente declarativo, dependente de fontes oficiais, refém dos manuais de redação, pouco conectado com a realidade das ruas e cada vez mais sujeito a todo um arsenal tecnológico para o seu funcionamento. Os jornalistas hoje estariam irremediavelmente destinados a uma imprensa em que a habilidade de lidar com os mais diversos suportes midiáticos tornou-se o alicerce da atividade profissional e então não existiria mais espaço para a ousadia da experimentação textual do conto-reportagem, atributo da revista Realidade. Diante de um cenário que aparenta ser desolador, caberia fazer algumas indagações. Um projeto jornalístico como Realidade seria factível atualmente? Em um contexto em que muito se conjectura sobre o fim da reportagem, da incapacidade de produzir trabalhos de pesquisa de profundidade na grande imprensa. Qual seria o legado da publicação? Podemos fazer algumas conjecturas a respeito resgatando o desempenho profissional de alguns jornalistas que têm representado uma espécie da resistência à sobriedade exacerbada e ao distanciamento como estilo. A ascensão gradual dos livros-reportagem e romances-reportagem no Brasil a partir da década de 1970 até os dias atuais com a publicação de obras como Infância dos mortos (1977) de José Louzeiro, O que é isso companheiro? (1979), de Fernando Gabeira, e 1968 – O ano que não terminou: a aventura de uma geração (1989) de Zuenir Ventura, pode indicar uma influência de Realidade na forma de fazer jornalismo em nosso país? Os trabalhos de Caco Barcellos, como Rota 66 – A história da polícia que mata (1993) e Abusado – o dono do morro Santa Marta (2003), seriam experiências semelhantes ao jornalismo de Realidade? E, nesse sentido, será que a grande reportagem estaria fadada ao formato livro-reportagem para continuar existindo? As crônicas-reportagem de Eliane Brum não indicam exatamente isso, pois trouxeram à tona o relato sobre a vida dos anônimos e marginalizados e foram publicadas a princípio no jornal de Zero Hora, de Porto Alegre, é só posteriormente deram origem ao livro A vida que ninguém vê (2006). Um outro trabalho da autora também exemplifica o caso, O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real (2008). Trata-se de um livro-reportagem que precedeu aos trabalhos jornalísticos de Brum para a revista Época. Tais trabalhos poderiam ser considerados ecos da publicação da Editora Abril na atualidade? Ainda um outro exemplo instigante seria o jornalismo produzido pela revista Piauí. Caracterizada por sua proposta audaciosa, está embasada no tratamento de temas incomuns e na adoção de perspectivas pouco usuais em relação às demais publicações da atualidade. Explora o gênero reportagem e abusa de recursos de estilo como a imanência da voz autoral. Uma publicação audaciosa desde o título ao projeto gráfico, valoriza os aspectos ilustrativos. Piauí seria herdeira de alguns dos atributos de Realidade? Não resta dúvidas que tais hipóteses ensejariam outros estudos. Entretanto, pode-se inferir que expressões jornalísticas tais como as citadas, podem dar pistas no sentido de um legado possível da revista Realidade. Pode-se vislumbrar que um jornalismo arrojado na forma e humanizado no conteúdo ainda é possível ser praticado. Por meio desses exemplos, pode-se considerar que a pesquisa de densidade, com o repórter nas ruas e no mundo, com sensibilidade e percepção suficientes para perceber o ser humano que protagoniza o assunto, além das estatísticas, é plenamente realizável. A existência de obras como as referidas acima sugere que as leituras de Realidade ainda ecoam na consciência daqueles que acreditam no espírito crítico e sensibilidade diante da condição humana, porquanto ainda são ferramentas indispensáveis ao exercício da profissão do jornalista e não apenas veleidades de um jornalismo romântico relegado ao passado. Jornalismo por vocação. Postura terna, mas combativa perante o compromisso de ser um narrador da história imediata, história do presente. Essas são as mensagens que emanam das envelhecidas – mas sempre inovadoras e revolucionárias – páginas da revista Realidade.
225 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS