
Arendt E A Fenomenologia Da Liberdade
By Tâniara AguiarLength3h 10m
About this audiobook
Pensar o fenômeno da liberdade permite realizar não somente uma liberdade possível, como também, e principalmente, dá esperança num sempre ainda-não devir, um futuro, aplacando, assim, precária, intermitente e provisoriamente o nosso desespero diante da vida e das coisas. Somente somos livres, efetivamente, na ação política. Somos todos livres para começarmos, ao nascermos, e para recomeçarmos, no agir e pensar no mundo e sobre o mundo e sob o mundo. O fenômeno da liberdade se realiza e se confunde com o próprio espírito humano, nunca imune às intempéries do desespero. Desesperamos sempre. Mas também esperamos sempre que o sol nasça amanhã num novo dia de possibilidades. Esse esperar, mesmo no desespero, é fé e esperança. O futuro que preparamos diariamente não é somente uma promessa: é a promessa única de possibilidades futuras. Pensar, e não simplesmente teorizar, é a ação do espírito que se materializa na vida mesma, como ação política (compartilhada). Do mesmo modo que seu mestre, Heidegger, Hannah Arendt concebe o pensamento como um lembrar e relembrar: somente os seres históricos, que nós mesmos somos, são e somos capazes de lembrar e relembrar. Temos memória porque temos história. Temos história porque temos memória. O plasma e a matéria do espírito humano são seus feitos (ações históricas). Um pensamento contemplativo por si mesmo nada tem de "real" no sentido de uma efetividade. Somente é efetivo o pensamento que aparece em seu fenômeno: uma aparência compartilhada, porque compreendida na realização do ato de pensar-agir. A imaginação, como faculdade humana, plasma os fenômenos no sentido de dar uma "forma" (sentido) ao mundo pensado, lembrado, relembrado. A imaginação, assim, é o movimento da memória. Imaginar dá imagem à memória, trancafiada num passado petrificado pela tradição. A tradição quer permanecer. Nesse querer permanecer, a tradição relega ao esquecimento coisas e acontecimentos originários que somente o pensamento pode trazer novamente à vida do espírito e ao espírito da vida. Não temos acesso à causalidade ou às causalidades advindas de nossos atos. É necessário um contador da história, um narrador que, ao narrar, lance luz sobre vetores históricos imprescindíveis para a continuação e consumação de outros eventos históricos, inacessíveis ao ator no ato de sua ação e ocultados pelo esquecimento tradicional. Não podemos prever o futuro de nossos atos. Nunca pensamos duas vezes um mesmo pensamento. Mas podemos pensar mil vezes sobre uma mesma coisa. A mesma coisa, no entanto, revela aspectos não visados ou não pensados sobre ela mesma. É simples: quando pensamos podemos rememorar aspectos que permaneceram impensadas pela tradição. O pensamento, portanto, tem o poder de "mudar" o passado e o futuro: o pensamento faz história e muda a história. A história, de modo incontornável, também muda o pensamento. Porque quando é natal no mundo, quando nascemos, nascemos num mundo prévio, antigo e pronto a nos receber. O mundo está sempre pronto para nós. Nós, ao contrário, não nascemos preparados para o mundo: é o mundo que nos prepara e prepara, muitas vezes, a indigesta refeição da vida. Mas sempre há a possibilidade de, num mundo deserto e desolador, encontrarmos oásis. Um oásis é um dia de feriado do desespero que nos permite, a cada dia, esperar por um amanhã. O amanhã é a casa da esperança. A esperança é gestante e nutriz do amanhã. Compreendemos isto. Compreender, contudo, não é simplesmente aceitação ou rejeição de algo. Compreender o passado nos abre para uma possibilidade de futuro. O "perdão" ao totalitarismo não é uma aprovação ou rejeição a ele: é um seguir em frente, um seguir vivendo, não por ele nem apesar dele, mas "acima" dele: superação. Superamos a não mera, mas suposta, causalidade dos eventos históricos quando recomeçamos.
Audiobook details
GenrePolitics and Government, Philosophy
Length3 hrs 10 mins
Narrated byListen with 1,000+ voices
FormateBook with Audio
Publish dateAug 22, 2024
LanguagePortuguese
Table of contents
1TÂNIARA AGUIAR DE SOUZA
2TÂNIARA AGUIAR DE SOUZA
3CONSIDERAÇÕES INICIAIS
4A pergunta pelo sentido das coisas busca
5temporal entre o passado e o futuro – que promove
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6celebrável, mas
7brotem da concretude dos próprios acontecimentos
814 Para Julia Kristeva, “A incontestável singularidade de
91 A LIBERDADE EM SENTIDO GENUÍNO
10Heródoto e Tucídides, as experiências gregas
11O que está conceitualizado pela tradição na palavra
1223 Ibidem, p. 91.
1325 Ibidem, p. 203. 26 Idem.
14O caráter de exibição pessoal em vigor na Grécia
15que isso, orgulhavam-se de resolver suas disputas
16Grécia antiga. Nesse caso, bárbaros e escravos não
17convivência entre os homens, a concordância entre
18Arendt, “[...] pode, certamente, habitar ainda nos
191.2 O ESPAÇO DE APARÊNCIA
20Hannah Arendt:
21Para Hannah Arendt a nossa aparição no mundo
22efetivação da condição humana da pluralidade, isto
232 CONFLITO ENTRE FILOSOFIA E POLÍTICA
2457 Ibidem, p. 47.
2560 Ibidem, p. 55.
2673 Ibidem, p. 60.
2775 Ibidem, p. 62.
2876 Ibidem, p. 63.
2980 Ibidem, p. 67.
303 O COMEÇO DO ENCOBRIMENTO DA
31ao
32(praxis), que carregam o maior significado para a
3395 Ibidem, p. 75.
34Todavia, na era moderna, esse elemento passou a
3597 Ibidem, p. 240. 98 Idem.
36“não há filósofo-rei que regule os assuntos
37Projeta-se, assim, novo conflito entre filosofia e
38Grécia à época da decadência da democracia.
39REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
40______. Os pensadores. Vol.I . São Paulo: Abril Cultural, 1978.