
Não Adianta, Ela Não É Mais Minha Filha
By Carlos Alberto Marins Da SilvaLength3h 13m
About this audiobook
Ela não era louca. Era mãe." Maria Custódia fugiu de um casamento violento em Minas Gerais com um pedaço de papel e um sonho. No Rio, trabalhou como doméstica, vendeu pastel, construiu um lar com lixo e teve dois filhos. Mas o sistema a rotulou: "louca". Internada por depressão pós-parto, foi separada dos filhos. Um foi criado pela tia; a outra, pela família que a ensinou a odiar a mãe. Anos depois, ao reencontrar a filha, ouviu: *"Você é pobre, maluca, indigente."* Ela caiu de joelhos. Nunca mais se levantou. Este livro é o testemunho do filho que nunca deixou de amá-la, Carlos Alberto. Com lágrimas, colheres de madeira e silêncios que gritam, ele resgata a história de uma mulher invisível: analfabeta, retirante, pobre, mas imensamente corajosa. Uma denúncia silenciosa contra o racismo, a pobreza e a violência institucional que apaga mães como ela. "Não adianta, ela não é mais minha filha." Ela não disse "não adianta" porque não a amava. Ela disse "não adianta", porque já havia feito o impossível: Enfrentou o ódio, a mentira e a manipulação. E Amou, mesmo quando o mundo a destruiu. Essas foram as palavras dela. Mas quem as escreveu? Fui eu. E agora… ela será lembrada.
Audiobook details
GenrePsychology, Biography and Memoir
Length3 hrs 13 mins
Narrated byListen with 1,000+ voices
FormateBook with Audio
Publish dateNov 3, 2025
LanguagePortuguese
Table of contents
1Não adianta, ela não é mais minha filha.
430A segunda gravidez: mais rápida, mais dolorosa, mais
2CIP BRASIL, CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
431assustadora
3SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS,RJ
432— É o bebê?
4ISBN 9786526651759 (origem CBL)
433101
5Carlos Alberto Marins da Silva
434“Seu corpo não aguenta mais.”
Show all chaptersShow less
6Não adianta, ela não é mais minha filha.
435— Ela é linda…
7Uma Biografia de Coragem, Silêncio e Amor.
436102
81ª Edição
437— Eu quero que chamem ela de… Maria Aparecida.
9"O tempo
438— Por favor… É uma promessa… avise Maria Aparecida.
10somente é porque algo
439— Por favor…
11acontece, e onde algo
440— Por favor…
12acontece o tempo
441A prisão do corpo e da mente
13está."
442Eclâmpsia pósparto.
14Milton Santos
443Hemorragia desmedida.
15Para a minha esposa,
444Retirada do útero.
16Maria da Luz,
445103
17cuja companhia é a luz
446104
18que ilumina a minha vida!
447Ela escolheu o amor
19altar
448105
20simbólico,
449Capítulo 8: O Que Fazer com as Crianças?
21sua
450Um de Quatro e uma RecémNascida
22imagem
451Abandonadas pelo sistema, abandonadas pela mãe.
23quase
452Talvez meses.
24sempre
453E mesmo quando acordar…
25da
454não será a mesma mulher.”
26matriarca
455— O que eu faço?
27inquestionável, da base sólida do lar.
456As portas que fecharam
28Este livro, no entanto, não é sobre essa mãe mitológica. É sobre a
457106
29Mãe Real. A de carne e osso que o mito insiste em esconder. A história
458107
30de Maria Custódia é um raioX de um Brasil que preferimos não
459— Não posso, filho… disse ela, com a voz fina como fio de
31enxergar, um retrato cru de como nossa sociedade trata suas mulheres
460aranha.
32mais fundamentais e, ao mesmo tempo, mais frágeis.
461— Já não tenho forças pra cuidar de uma criança.
33Sérgio Buarque de Holanda, em suas reflexões, falou de nosso
462— Como vou cuidar de duas, sendo uma recém nascida?
34"homem cordial", cuja vida em sociedade é um prolongamento do
463— Você quer que eu cuide do menino?
35ambiente
464— Posso.
36doméstico.
465— Mas a menina?
37Maria
466— Eu não tenho leite.
38Custódia
467— Não tenho roupa.
39avesso
468— Não tenho comida.
40exato
469— E se ela ficar doente?
41dessa
470— Vai ser minha culpa?
42cordialidade. Ela é a "mulher incordial" – não por falta de amor, mas
471108
43porque o mundo a seu redor lhe negou qualquer cortesia. Sua trajetória
472— Ela é filha dela também.
44Prefácio
473— É sua sobrinha.
45A Mãe que o Brasil Não Viu
474— Eu não posso.
46Há, na formação do nosso povo, um personagem central e
475109
47paradoxal: a Mãe Brasileira. Cantada em prosa e verso, elevada a um
476O gesto inesperado
48desvela as entranhas de um país onde a cordialidade é um privilégio de
477“Eu sei que você não tem onde colocar as crianças.
49poucos, um código do qual ela estava eternamente excluída por ser
478E sei que sua mulher não vai acordar tão cedo.
50pobre, analfabeta, retirante e, por fim, "louca".
479Minha esposa, Marinethe, e eu…
51Sua vida é um ensaio sociológico escrito com o corpo. Cada capítulo
480vamos cuidar da menina.”
52é uma tese:
481— Por quê?
53A fuga de Minas Gerais não é apenas um ato individual, mas a
482“Porque ela é filha de uma mulher que não teve chance.
54dramatização do êxodo rural que construiu as metrópoles brasileiras às
483E porque, se não formos nós, quem será?”
55custas do suor e da solidão de milhões.
484110
56O barraco no Morro do Juramento não é uma simples moradia,
485— Ela tem o mesmo cheiro da minha filha mais nova…
57mas a manifestação física da improvisação como modo de vida
486quando nasceu.
58nacional – a capacidade dolorosa de criar ordem e afeto a partir do caos
487— Ela vai ficar conosco.
59e do descarte.
488— Até a mãe melhorar.
60A venda de pastéis é a economia informal que move o país, a
489— Ou até que alguém venha buscar.
61resistência silenciosa contra a exclusão do mercado de trabalho formal.
490111
62A depressão pósparto tratada como loucura revela o machismo
491— Aqui está o menino.
63estrutural que patologiza o sofrimento feminino. Mostra como o
492— Ele não é meu filho.
64sistema, da medicina à justiça, atua não para curar, mas para
493— Mas é do seu irmão.
65disciplinar e separar o que não se enquadra.
494— Tudo bem.
66Carlos Alberto, o filhoescritor, realiza aqui uma dupla e notável
495— Mas não vou mimálo.
67função. Ele é, ao mesmo tempo, o narrador e o antropólogo de sua
496— Não vou dar doces.
68própria história familiar. Com uma lucidez que vai além da dor, ele
497— Não vou chamar de “filho”.
69descreve os rituais sociais que destruíram sua mãe: o ritual médico do
498— Só vou cuidar.
7016
499112
71INTRODUÇÃO: A MÃE QUE NINGUÉM VIU
500Duas casas. Duas vidas. Uma mãe ausente.
7217
501113
7318
502Mas não pode te ver.
74Foi ser lembrada.
503Porque o mundo acha que ela é louca.”
7519
504“Enquanto os adultos estavam com ela lá no apartamento,
76ela nunca morreu.
505um adulto ficava comigo e pedia para eu acenar enquanto ela
77Carlos Alberto Marins da Silva
506estava na janela.”
78Marabá PA, 2025
507A mãe que não sabia
7920
508114
80Dedicatória
509“Ah, sim. O menino ficou com a tia.
81Seu ‘Carlosalberto’
510A menina… foi adotada por uma família boa.”
8221
511“Adotada?”
8322
512115
84Capítulo 1: Maria Custódia
513O que isso significava?
85A mulher que não sabia ler, mas sabia sobreviver
514demais.
8623
515116
8724
516Capítulo 9: Depressão e uma Longa Internação
88“Você não precisa ser inteligente pra ser livre. Só precisa
517O corpo quebrado, a alma esquecida.
89ter coragem.”
518117
9025
519118
91“Sandra – Rua São João, nº 47, Morro do Dendê, Ilha do
520— Ele tá aqui todo dia.
92Governador – Rio de Janeiro.”
521— Não fala. Só olha.
93“Não vou voltar.”
522119
9426
523— Quem é aquele menino lá embaixo, acenando para
95— Onde fica esse lugar, na Ilha do Governador?
524mim?
96— Você vai de ônibus, moça. Pega a linha 117, vai até a
525— É seu filho, Maria.
97Ponto final, praça do Dendê. É lá, pergunta a direção do
526— Carlos Alberto.
98morro do Dendê, não é longe.
527120
9927
528— E o menino? Ele tá com quem?
100— É só subir essa ladeira, você já está praticamente no
529— Com a Dália.
101Dendê. Apontando para o alto.
530— Ele está bem.
102“Você veio.”
531E então… o exílio
10328
532Mais espaço.
10429
533Menos ruído.”
105privilégio dos que tinham sido amados.
534121
106“Ela não fugiu porque tinha medo.
535122
107Fugiu porque já não tinha mais nada para perder.”
536O que acontecia dentro dela?
10830
537Você é forte.
109Capítulo 2: Encontro com Girceu
538Você é mãe.”
110O sorveteiro que levou o coração dela de volta à vida
539123
11131
540A alta e o primeiro grito
112— Piiiip… Piiiiip… Piiiip…
541— Ela não tem esquizofrenia.
113“Sorvete! Sorvete de creme, de morango, de coco!
542— Não tem psicose.
11432
543— Tem depressão puerperal grave.
115Gelado pra matar a sede, bom pra alegrar o coração!”
544— E foi tratada como criminosa.
116— Toma, moça. Prova. É só pra você.
545124
117— Não preciso…
546“Meus filhos…”
11833
547— Seus filhos?
119— Toma. É cortesia.
548— A menina está com uma família boa.
120sem pedir nada em troca.
549— O menino, com a tia.
12134
550Ela disse: não sei escrever, escreve o que vou dizer, por
122 Você vem sempre nesse horário?
551favor.
12335
552125
124— Por quê?
553“Quero meus filhos.”
125— Pra comprar pro patrão.
554126
126— E você? Nunca come?
555O que isso significava?
12736
556127
12837
557Capítulo 10: Tia Dália e Dona Marizethe
12938
558As mulheres que salvaram o que o mundo esqueceu
130"Você tá apaixonada, menina",
559Tia Dália: O Amor com Medo
13139
560“Deus me deu coragem para cuidar,” dizia ela, “mas não
132Palitos de madeira
561me deu útero para ter.”
13340
562128
134“Ele não me pediu em namoro.
563Cada opção traz duas consequências: boa e ruins.”
135Me ofereceu um sorvete.
564— Sabe, Carlinhos, no tempo do meu pai, havia um pessoa
136E eu aceitei.
565que fugiu de Tarumirim com um pedaço de papel na mão...
137Porque pela primeira vez,
566129
138alguém me deu algo
567“Ela está muito doente.
139sem querer nada em troca.”
568Mas Deus vai curála.
14041
569E quando ela voltar…
141Capítulo 3: Quem é Girceu?
570você vai ver: ela ainda é sua mãe.”
142O homem que amava, mas não conseguia ficar
571130
143A coragem dos que resistiram à escravidão… e o silêncio
572Ela não te abandonou.
144dos que foram desaparecidos.
573Ela foi levada.”
14542
574131
146a dívida eterna.
575Medo de que eu me apaixonasse por alguém que não
14743
576poderia me devolver.
14844
577Dona Marinethe: O Amor com Fome
149“Se eu não sair daqui, vou morrer devendo.”
578“Ela não precisa de papéis.
15045
579Ela precisa de mim.”
151Meier.
580132
15246
581“Posso levála para ver a mãe?”
153— Ele é um homem bom.
582Ela ainda é pequena.
154— Ele não quer roubar.
583Não entende.
155— Ele quer viver.
584Pode assustar.”
15647
585133
157— Dêlhe 30 dias.
586— Eu vim buscar minha filha.
158— Eu garanto.
587134
159À noite, cuida do estoque.
588A Foto que Nunca Saiu da Parede
160Não recebe, mas tem um lugar.
589Com seu pai e seu irmão.
161E se for bom, em um mês, você passa a ter rotas.”
590Em casa da Dona Marizethe.
16248
5911972.”
163— É o Girceu.
592135
164— O que fugiu.
593Eu não sabia que isso fosse acontecer
16549
594“Tia Dália me amava com medo.
166Ele a viu.
595Dona Marizethe amava minha com fome.”
167“Você merece um momento de doçura.”
596 Que o amor não precisa de sangue.
168“Você merece ser vista.”
597 Que o sofrimento não precisa de justificativa.
16950
598 Que a mãe pode estar viva…e ainda assim,
170“Se você voltar, te matamos.”
599não conseguir te encontrar.
171Tinha esperança.
600136
172Tinha um sorvete.
601Capítulo 11: Quero Meus Filhos
173Tinha um olhar.
602Ela não nos abandonou. Ela foi arrancada de si mesma.
174E ele a tinha.
603— Eu sei que você quer o seus filhos, — disse ela, sentando
17551
604no banco de frente para a quadra do Atlético Clube Meier ,
176O silêncio compartilhado
605com uma xícara de chá na mão.
177julgamento.
606— Eu te vi esperando na escola da menina.
17852
607— Eu vi você chorando no portão do clube.
17953
608— Eu vi você guardando as colheres de madeira.
180Capítulo 4: Conquista do Barraco
609137
181Um teto de tábuas, um chão de terra, um lar.
610— Você não é louca.
182— Você tem dinheiro?
611— Você é mãe.
183— Não muito. Mas tenho guardado o meu salário. Toda
612— E eu… eu não posso ser sua substituta.
184semana, quando pago as compras da patroa, sobra um
613— Eu sou apenas uma tia.
18554
614— Ele é seu filho, Maria.
186trocado. E eu não gasto nada. Nem em roupa. Nem em sapato.
615— Não me pertence.
187Nem em doces.
616— Nunca pertenceu.
188— Tem um lugar. Próximo a Igrejinha no Morro do
617— Eu o criei porque você não podia.
189Juramento.
618— Mas agora…
190— A dona que comprou lá vai embora pra Minas.
619— Agora você pode.
191— Ela quer vender por 200 cruzeiros.
620138
192— É um barranco.
621 Fez um pão para ela.
193— Mas dá pra construir.
622 Guardou minhas roupas.
194— E tem vista.
623 Deixou um picolé de creme em um pratinho sobre a
19555
624mesa.
196como se fosse tobogã. Um homem chegou a bater a cabeça no
625“Você vai ser madrinha dele.”
197muro lá embaixo. Ficou três dias de cama.”
626139
198— É só seu.
627Dona Marinethe: A Porta que Nunca Abriu
19956
628— Ela não pode cuidar.
200— O terreno é meu desde 1958. Ninguém veio reclamar.
629— Ela está maluca.
201— Se quiser, pode começar agora.
630140
202— Eu dou as tábuas que sobraram da minha casa.
631— Ela não tem condições.
203— E o telhado? Pode usar latas velhas que você achar no
632— Ela não tem dinheiro.
204lixo.
633— Ela não tem estabilidade.
205— A água? Vai da torneira da vizinha, uma nascente entre
634141
206as rochas.
635Ela é minha filha, saiu do meu ventre, e vai descobrir o
207— O banheiro? No fundo, a fossa foi construída na frente.
636meu amor.”
208— E a privada? Um buraco.
637O Silêncio dos Homens
209— Mas vocês vão ser felizes aqui.
638142
21057
639— Ela não é louca.
211 Girceu ia trabalhar.
640— Ela é forte.
212 Maria ia à feira.
641— Ela passou por tudo.
213 E nas folgas, ela andava pelas ruas de Vicente de
642— Ela merece ter sua filha.
214Carvalho, recolhendo tudo que achava:
643Mas tenho poder para tirar o que você tem.”
215 Uma tábua de madeira jogada fora por um carpinteiro;
644— Se você insistir nisso…
216 Duas telhas de zinco quebradas, mas ainda úteis;
645— Vou precisar pedir sua demissão do clube.
217 Um pedaço de corda de sisal, que viraria amarra;
646— E se você for embora…
218 Um pano de saco de farinha, que viraria cortina;
647— Onde você vai morar?
219 Uma lata de óleo, que viraria panela.
648— Onde você vai trabalhar?
22058
649— E se ela não conseguir sustentar os dois?
22159
650143
222A gravidez começa entre as paredes de madeira
651— Eu vou te ajudar.
223“Estou grávida.”
652— Mesmo que eu perca tudo.
224— Grávida?
653— Eu não quero nada de você.
225— Agora?
654— Só quero minha filha.
226— Você sabe que isso atrapalha?
655A Batalha Silenciosa
227— Eu sei.
656— “Se ela levar a menina, quem vai pagar os costumes
22860
657dela?”
229— Então, você não vem mais.
658— “Ela não tem renda suficiente.”
230“Eu te sustento agora.”
659144
23161
660— “mas, Ela tem força e muito amor.”
232“É a mulher do morro.
661— “Ela vai matar a criança com carinho.”
233A que faz pastel bom.”
662— “Ela vai confundir a menina.”
234A queda
663— “Ela não é capaz de dar segurança.”
23562
664— “Eu não tenho nada. Mas tenho ela.”
23663
665— “Se ela for embora, eu vou junto.”
237“Não podemos ficar aqui.”
666eu não te esqueci.
238 Duas roupas.
667Eu não te abandonei.
239 Um pote de comida.
668Eu fui arrancada.
240 Um colchão de palha.
669Mas eu voltei.”
241 E o único tesouro: as três colheres de madeira que ele lhe
670145
242dera.
671Nunca se rendeu
24364
672“Ela não nos abandonou.
244Tu vais nascer, pequena flor da terra.”
673Ela foi arrancada de si mesma.
245E vida é sagrada.”
674E nós, crianças, não entendemos que ela já não existia.”
24665
675146
247O barraco como símbolo
676Capítulo 12: Quero Minha Filha
248— no chão de terra,
677O segundo abandono. “Ela precisa de um lar estável.”
249— sob a sombra da árvore,
678147
250— com o som da chuva no telhado de lata,
679— Você é pobre!
251— com o cheiro de pastel frito na fogueira,
680— Não tem condições de pagar o leite que eu bebo!
252— com o homem que a via,
681— Sua maluca!
253— com o filho que nasceria em liberdade
682— Você não tem dinheiro pra comprar uma sandália pra
25466
683mim!
255“Nenhum cartório registrou esse lar.
684— Você não tem estabilidade!
256Mas foi o único lugar onde ela se sentiu dona de si.”
685— Sai daqui, sua doida!
25767
686— Me larga!
258Capítulo 5: Meu Nascimento
687— Você é uma vendedora de pastel!
259No Hospital Federal do Andaraí, entre gritos e silêncios
688— Pobre!
260— É mágoa,
689— Louca!
261— Alguém te fez mal antes. E agora o corpo quer expulsar
690148
262esse mal.
691— Eu sou sua mãe, dizia, com voz quebrada, como se fosse
26368
692a última coisa que lhe restava.
264— Não está dilatada.
693— Você não imagina o que sofri para trazer você a esse
265— A bolsa não estourou.
694mundo…
266— Mas ela tá morrendo.
695— E não morreu?
267— O que isso quer dizer?
696— Tinha que ter morrido.
268— Quer dizer que o corpo dela não aguenta mais.
697— Porque não morreu?
269— É como se tivesse um fogo dentro.
698149
270— Se não for pro hospital, ela pode não sobreviver.
699Denúncia – Policia para policia?
27169
700150
272— Aqui não tem condições.
701— O que aconteceu?
273— Ela precisa de exames. De sangue. De observação.
702— Ela disse que eu não sou mãe.
274— Levemna para o Hospital Federal do Andaraí.
703— Que eu sou louca.
275— Agora.
704— Que eu sou pobre.
276meses. Dor intensa. Sem dilatação. Sem ruptura de bolsa.
705— E que eu tinha que ter morrido.
277Suspeita de complicações hematológicas.”
706— Sequestro de menor.
27870
707— Abuso psicológico.
279— “Me ajuda! Me ajuda!”
708— Incitação à rejeição parental.
280— “Eu não quero morrer!”
709151
281— “Meu filho… meu filho…”
710Estamos indo embora.”
28271
711152
283E então, no dia 25 de agosto de 1967, às 4h32 da manhã,
712A busca
284nasci.
713Tem cinco anos.
28572
714153
286“Meu filho… você veio pra ficar?”
715Cabelo liso.
28773
716Olhos claros.
288Carlos Alberto Marins da Silva
717Chamase Maria Aparecida.”
289— Ele vai ser como ele,
718— Hoje te comprei pão com manteiga.
29074
719— Te trouxe um picolé.
291— Vai ter a força de um cantor.
720— Você ia gostar.
292— E o coração de um guerreiro.
721— Ela é criança, Maria.
293Carlos Alberto Marins da Silva.
722— Ela não sabe o que diz.
294A alta e a advertência
723— Ela só repetiu o que ouvia.
29575
724154
296“Ela teve um parto de risco extremo.
725— Mas ela me chamou de maluca, respondeu mamãe.
297Foi milagrosa.
726— E eu nunca fui maluca.
298Mas se engravidar de novo…
727— Eu fui mãe.
299corre o risco morrer.”
728A queda final
300Nenhum esforço.
729155
301Nenhuma carga.
730Ela é mãe.
302Nenhum contato físico.
731Ela não é louca.”
303E nenhum sexo.
732156
304Caso contrário, não haverá segunda chance.”
733Eu queria voltar a ser mãe.”
30576
734157
306“Nande reko’i, nande reko’i.
735Medo de ser pobre, e escolhas?
307Nde ha’e pe yvoty heñóiva’ekue yvy oñembyaívagui.”
736“Você é minha mãe.”
308(Nosso modo de ser, nosso modo de ser.
737Não por obrigação.
309Volta para casa e a luta por liberdade
738Não por lei.
31077
739Mas por memória.
311“Vai acordar mais cedo.”
740“Eu te amo, mamãe.”
312“Prepara o café.”
741158
313“Vá para o engenho agora, estou mandando.”
742159
314“Esse menino não pode brincar aqui.”
743Capítulo 13: Volta pra Casa, Mamãe – TE AMO!
315No Morro do Juramento.
744O retorno que trouxe paz.
316E eu não vou deixar outro homem me dar ordens, sem a
745160
317gentileza e a generosidade que mereço.”
746“MÃE! EU TE AMO!”
31878
747— MÃE! EU TE AMO!
31979
748161
320A única lembrança que o mundo registrou
749“EU TE AMO, MÃE! VOLTA PRA CASA! VOLTA COMIGO!”
321Filho da mulher que fugiu.
750162
322Filho da mulher que construiu um lar com lixo.
751163
323Filho da mulher que não sabia ler, mas escreveu sua liberdade com
752— Ela te chamou de lilinho, filho.
324o corpo.
753A alta
325Filho da mulher que, mesmo sem anestesia, deu à luz a esperança.
754164
326“Ninguém naquela maternidade sabia o nome da minha mãe.
755“Você salvou a minha vida.”
327Só chamavam de ‘aquela mulher que gritava’.”
756“Eu tenho você, meu filho.
32880
757165
329ela nunca será esquecida.
758Para que você seja feliz.
33081
759E tenha um futuro melhor que o nosso.”
331Capítulo 6: Retorno para o Rio de Janeiro
760A casa que voltou a ser lar
332Da calma do interior ao caos da cidade
761166
33382
762“Lilinho… eu te amo.”
33483
763“Eu também te amo, mamãe.”
335O Rapa veio
764“Nande reko’i, nande reko’i…”
336— “Limpeza urbana.”
765167
337— “Ordem pública.”
766Eu te amo!
338— “Cadastro obrigatório.”
767168
339–
768Capítulo 14: Não Adianta, Ela Não É Mais Minha Filha
340Você tem licença?
769O capítulo mais doloroso. O mais verdadeiro.
341–
770Não por escolha.
342Não?
771Por necessidade.
343“Me devolvam! É tudo que eu tenho! Meu filho vai passar
772169
344fome!”
773170
34584
774uma família unida por amor, não por obrigação.
34685
775171
347— O senhor me empresta um isopor?
776— Mãe! Gritei, quase correndo.
348— E um adiantamento?
777— Minha irmã veio me ver!
34986
778— Ela passou em odonto!
350— Você quer isso pra ela?
779— Ela quer nos visitar!
351— Ela é minha mulher.
780— Podemos ir lá? Podemos conhecêla?
352— Vá na garagem.
781Ela não é mais minha filha.”
353— Tem um isopor novo.
782172
354— E aqui,
783173
355— é seu.
784pena viver.
356— Não precisa devolver.
785Os Dois Pedidos
35787
7862. Não quero velório. Quem queria me ver… me visitou
358“Vamos recomeçar.”
787em vida.”
359A generosidade sem troca
788174
360Havia pessoas que davam sem esperar nada em troca.
789Até que…
36188
790“Eu amei. Eu sofri. Eu chorei.”
362Documentarse.
791Ela era criança, mas também fez suas escolhas.
363— Vocês são casados?
792Ela cresceu, com fé nas mentiras contadas e criadas.
364— Não tenho identidade,
793Ela viveu e teve o livre arbítrio, e jogou a última pá de
365— Mas vivemos juntos há quase três anos.
794terra no amor.
366— Ele me protegeu.
795175
367— Eu o amei.
796“Filho, meu amor foi enterrado, humilhado e eu estava
368— E ele me fez sentir que valia a pena viver.
797viva.”
36989
798As mentiras, as manipulações e o ódio venceram.
370Licença provisória para venda ambulante.
799Mas também não perdi e nem tão pouco foi um empate.
371A segunda gravidez e a escolha mais corajosa
800Mas ambos foram amados pela mesma mãe.
37290
801E ambos, de formas diferentes, a salvaram.
373“Eles disseram que se eu engravidar de novo… vou
802Um por amar a mãe incondicionalmente e
374morrer.”
803o outro por odiarla irracionalmente.
375Se ele me pede para carregar mais um filho…
804O que posso concluir com isso tudo?
376eu vou carregar.
805O amor de uma mãe não precisa de reconhecimento para
37791
806existir.
378contigo.”
807Ela não precisa de palavras.
379não havia nada mais sagrado do que dar vida.
808Não precisa de memória.
380E ela, que havia fugido para salvar a própria vida,
809Não precisa do recohecimento de um filho.
381agora estava disposta a perdêla para salvar outra.
810176
382O que aconteceu depois?
811“Por que ela disse isso?”
38392
812“Por que não me abraçou?”
384 Chás de alecrim e folha de goiaba.
813“Por que não aceitou?”
385 Alimentação leve.
814177
386 Descanso.
815"MÃAAAE! EU TE AMO! ENQUANTO EU VIVER, VOCÊ
387 E o amor do meu pai, que passou a trabalhar menos e a
816FIM
388vir mais cedo, todos os dias para casa, pois largou o segundo
817178
389serviço de vigia.
818Mãe,
390ela seguiria sendo mãe.
819Você não me ensinou a ler.
39193
820Mas me ensinou a sentir.
392Nem que eu morra!
821Você não me deu uma casa de tijolo.
393“Você vale mais que o sistema.”
822Mas me deu um lar de alma.
39494
823Você não me contou histórias de reis e rainhas.
395“Eu vou continuar.”
824Me contou histórias de fuga, de colheres, de apitos e de pastéis.
39695
825Você não me disse “eu te amo”.
397Capítulo 7: Outra Gravidez de Risco
826Mas me chamou de lilinho
398O corpo que não parava de sangrar
827e isso foi mais que mil palavras.
399“Vou levar até o fim.”
828Você perdeu uma filha.
40096
829Mas descobriu um filho que nunca a esqueceu.
401Delegado Biônico
830E quando você disse “não adianta”,
40297
831eu não chorei por ela.
403“Você quer um teto?
832Chorei por você.
404Um lugar pra viver?
833Porque eu entendi:
405Com direito a luz elétrica, água, e segurança?”
834179
406— Tenho casa.
835Você não estava negando a filha.
407— Não tem casa. Tem um barraco.
836Estava protegendo o que ainda restava de você.
408— E sua mulher está grávida.
837E o que restava…
409— Ela vai cair de novo naquela escada?
838era eu.
410— Vai voltar ao hospital com sangue no chão?
839Então, eu não vou pedir que você a reconheça.
411— O clube tá falindo, mas tem um quartinho nos fundos.
840Eu vou continuar te reconhecendo.
412— Era o vestiário feminino.
841Você é minha mãe.
41398
842Mesmo quando não sabia meu nome.
414— Agora é só um cômodo com parede de gesso.
843Mesmo quando não se lembrava do meu rosto.
415— A cozinha está metade vazia.
844Mesmo quando o mundo a chamou de louca.
416— Você pode morar ali.
845Você foi a única pessoa que me fez sentir que,
417— E ser o novo vigia.
846mesmo quando tudo desaba,
418— Pode dormir aqui.
847o amor ainda pode ser a última coisa que sobra.
419— Pode cuidar da porta.
848Eu te amo, mãe.
420— E nos bailes eu te dou 30 cruzeiros.
849E mesmo que você não me ouça…
421— E você não precisa mais andar tanto.
850Eu estou aqui.
422“Eu vou carregar.”
851E vou continuar aqui.
423 Dois cobertores.
852180
424 Umas panelas.
853Seu filho,
425 As três colheres de madeira.
854Carlos Alberto
426 E eu com quase quatro anos, segurando a mão da mãe.
855“Carlosalberto”
42799
856Liliiiiinho
428Aqui, eu posso te ver brincar, filho.
857181
429100