Sobriedade Subversiva

Sobriedade Subversiva

By Carlos Roberto Pinto
Michael Caine
Listen with Sir Michael Caine™ and 1,000+ voices
Length42m

About this audiobook

De mãos dadas, vamos juntos realizar a travessia pela vivência profunda num jogo de espelhamentos, identificações e diferenciações. Prometo a você que será um jogo infernal e simultaneamente extasiante, campeado pelo paradoxo, norteado pelo antagonismo, imbuído de ambiguidades. Nesse universo místico, o amor terá ódio junto, o inferno será divino, as coisas serão e não serão. Enfim, aqui não vai ter etiquetas como você quereria, não vai ter gavetas certas das coisas. Tudo estará em constante desordem. E também vou desorganizar tudo e fazer que olhe que a vida não é bem assim. Serei um liquidificador, mesclando bom e mau, justo e injusto, certo e errado, divino e não-divino. Vou confrontá-lo com meu olhar enigmático e misterioso a todo momento, desafiá-lo, ameaçá-lo, colocar você em xeque, fazer que me enxergue de outro jeito, que você nunca me enxergou. Quando chegarmos ao ápice da viagem, estaremos imersos num túnel denso em que perceberá sua cegueira e, aí, dar-se-á a desmontagem de suas camadas e a modificação de seus leitos e afluentes, o processo arqueológico do seu ser. Vai entrar em decomposição a fim de atingir a matéria vital das coisas, sua essência. Vai se desfazer de seus estratos, se despersonalizar. E ao se desfazer quase perdendo a silhueta, vai se deparar com um neutro nada apaziguador e muito mais difícil que as polaridades. O neutro lhe será perturbador na medida em que não é bonito nem feio, não é certo nem errado, não é bom nem mau. E aí deixarei você a sós nesse lugar bastante incômodo que você desejará saber o que é, quererá definí-lo. E por mais que tente, descobrirá que o neutro é um lugar indefinível e mais assustador e não suportará uma coisa inominável. Desequipado da linguagem, das caricaturas, dos rótulos e dos estereótipos, você estará diante de uma experiência que não tem nome. O neutro será tão potente e, concomitantemente, infernal. O neutro será algo que não você conhece mais, posto que já se formatou nas polaridades. Não conseguirá determiná-lo porque não conseguirá pensar alguma coisa senão pelo princípio da não-contradição já que a linguagém o adestrou assim, mostrando que as coisas são ou não são e estão bem separadas. Acalme-se, respire fundo, estamos quase chegando ao nosso destino, mas antes vou embaralhar as cartas mais um pouco, bem como faço com as fronteiras da razão e da não-razão. Tudo até aqui esteve em trânsito, foi móvel e permaneceu em deslocamento a ponto de ser enlouquecedor, desconcertante, arrebatador. Mas percebo que você se cansou, sequer deu dois passos, tamanha é a intensidade do estranhamento, ao sentir que perderia o fio do caminho. Por fim, chegamos mas o desembarque será do lado oposto que você queria alcançar. Deixo você seguir em frente no aconchego da familiaridade anestesiante que pacifica e acomoda. E volto ao ponto de partida com o estranhamento que é mesmo minha base e que exige muito de mim, e que me tenciona e me movimenta, como a falta e o espanto. Viver em surpresa é o meu desvio do itinerário habitual para o ineditismo de uma terrível indisposição feliz.

Audiobook details

GenreSpirituality and Religion, Philosophy
Length42 mins
Narrated byListen with 1,000+ voices
FormateBook with Audio
Publish dateJul 10, 2020
LanguagePortuguese

Table of contents

1http://www.cbl.org.br/telas/servicos/sobreFicha.aspx
10Em 3020, já não faz mais sentido e não há mais leis que nos regem, já que somos apenas ossos. Nåo há mais papéis nem personagens. Não há tramas, enredos nem folhetins. Muitos que neste tempo ainda estão em carne viverão em 3020 em obras, lições, ensinamentos. Passado, presente e futuro condensados num só tempo, "jás" e "agoras" em outros tempos e espaços emoldurando outros modos de viver.
2http://www.cbl.org.br/telas/servicos/sobreFicha.aspx
11O jovem tentava em vão mirar seus olhos num corredor de candura, mas, de soslaio, o olhar se lançava para o manequim que o atraia com um magnestismo abominoso.
3Sobriedade subversiva 14
12Mais tarde, em casa, Carlitos, já domesticado, lembrava o lado B que o manequim despertara. Aureolado pela paz alienada, o jovem resolvera viver do mesmo jeito. Pelo espelho, olhava na cama a sunga psicodélica que comprara às escondidas e, sem nenhuma maldade na mente, apagava a luz do quarto de dormir, disposto a esquecer a salacidade do dia deixando no escuro o elemento da sua imoralidade. Sabe de nada, rs.
4Narrar é vital. E dar forma ao que não tem forma é desafiador. A pandemia da Covid-19 remexeu meus mais obscuros cantos e confrontá-los foi como tocar num incêndio. Na tentativa de organizar o caos de dentro, entrego em forma de livro essa coisa aqui. Já foi sugerido pelo poeta cubano José Martí que o homem, durante sua existência, deve plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Não tenho a pretensão de transcender o tempo e o espaço por um triplo legado. Mas estou ciente de que, durante a minha passagem pela Terra, duas heranças já foram deixadas. Fazer um filho, ficarei devendo. Hoje ainda sou de carne e osso mas sei que, algum dia, serei apenas ossos, não por vontade, mas a contragosto, sendo assim me despedaço aqui. E assim viverei e habitarei cada palavra, portanto não fique me procurando por aí.
13Sentia o gostinho de felicidade, gostinho de quero mais. Queria logo dar minha vida à luz e prender aquele instante entre os dedos antes que nunca mais fosse meu. O passado tinha acabado de fecundar o presente e o futuro estava em fase embrionária. Estava enebriado, a rua desabrochava em trevos de quatro folhas e havia agora mundo no meu coração.
5Gabriel intuia que o pai voara alto a caminho da luz infinita e encontrara então a paz absoluta em meio à plenitude. E como no crepúsculo, no horizonte de Gabriel não cintilava nitidamente vida sorridente entre a claridade do dia e a escuridão da noite. A Vida que sempre lhe fora doce pela primeira vez tinha sabor amargo de fel.
14Tinha horas em que vivia em completa alienação. Não sabia que era mim, assim como um cão não sabe que é si. Não tinha futuro nem passado tampouco presente porque não existia. Nada me abalava nem mesmo saber que não fazia falta a quem quer que fosse. Olhava para o espelho e não via nada como se minha cara tivesse sumido de vergonha. Só me entendia por gente quando encontrava outro parecido como dois bichos da mesma espécie que se farejam.
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6É inútil. Tem horas em que não adiantar dizer. Certas coisas, para sabê-las, é preciso sentí-las. Não basta cobrar de certas pessoas empatia, resiliência. Elas necessitam sentir na própria pele, passar pela experiência. Falar, às vezes, só roça de leve na dor. Para sentí-la de verdade, é necessário entrar em contato direto com a mesma, ser atingido em cheio, aproximar-se à força, aí sim se obtém um pré-requisito para a travessia.
15O vírus me era. E não havia água e sabão nem álcool gel que me matassem. Já estava incutido na mente. Já estava internalizado no ser. Já estava introjetado na máscara usada contra os outros. Disseminado e enraizado. Incorporado e consolidado. Endêmico e institucionalizado. O vírus se me era. E eu matava a tudo e a todos por asfixia, deixando irrespirável o mundo.
7Que possamos agora ouvir no silêncio da respiração do mundo, o grito que suplica por um sopro de vida. Que possamos, assim como os animais, andar de mãos dadas com a natureza, sem fazer dela escrava, compreendendo que da sua preservação depende nossa sobrevivência, assim como da preservação da caça depende a sobrevivência do predador.
16Tenho buscado sempre o crescimento, aperfeiçoamento e aprimoramento ainda que pelas formas mais tortas e sofrido tombos contínuos nessa trajetória, frequentemente caindo ao chão, voltando a ser húmus e rastejando humildemente na tentativa de abocanhar uma totalidade de entendimento inalcancável, inatingível, fadada sempre ao fracasso.
8Tinha acabado de renascer e parecia vergado a novas evidências. Daniel queria apertar o botão de parar, mas o tempo se esvaia às pressas, levando embora todas as horas com seus minutos e segundos. Portugal era seu novo lar e o rapaz mobiliava a rotina com um jardim de sonhos desenterrados.
17Que a infeliz e vergonhosa recordação do período de escravidão não se mantenha viva em vocábulos e não volte arrependida em expressões denunciando nosso racismo à brasileira.
9Diferentemente de outras civilizações que se imortalizaram pela ideia de conjunto, nos tornamos migalhas, pulverizados pela explosão de nossas partes. Não houve tempo para uma vida comunitária. Fomos núcleos anônimos, células desconhecidas que não formaram tecidos encorpados. Um aqui. Outro ali. Sem intimidade de corpo. Salvo em casos especiais e situações ritualísticas.
18Ponho os pés pra fora de casa, e o sequenciamento prossegue em outro nivel, mas cadenciado e num ritmo mais frenético, já me perdi no meio de tantas nuances, na mistura de cores e tons, o sonho guardado tenta emergir, porém mais uma vez é asfixiado e perde o ímpeto. O sonho seca, se despedaça, se dissolve, se desintegra, já não é mais sonho. Nesse momento, desperto. O sonho sou eu e a realidade abre a porta. Um fragmento de 24 horas, uma versão editada, um bastidor revelado fora do palco iluminado e em ação, em que só eu consigo e posso ver e sentir agruras, dissabores e devaneios. O sonho sou eu, que já me perdi entre outros eus, que se desdobram em vários vocês, que formam o imenso novelo de nós. Um nó foi dado. E o sonho, nivelado.

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