Há um equívoco que precisa ser dissolvido antes que qualquer leitura psicanalítica do filme de von Trier consiga ganhar tração. Trata-se da tentação de chamar Melancolia, de dois mil e onze, de "filme sobre a depressão". Sim, Von Trier filmou de dentro de um episódio depressivo grave, é verdade que a primeira metade do filme se chama Justine e que a personagem encarna uma desorganização afetiva profunda. Mas se reduzirmos a melancolia ao DSM5, perderemos o que torna o filme um caso conceitual de 1ª linha. A melancolia, no sentido em que a psicanálise opera com o termo, não é um intensificador da depressão. É outra economia. É outra posição do sujeito em relação ao objeto. E é, talvez, o que Lacan deixou mais intransitado no seu próprio percurso.
Se estas Divagações fazem sentido, é por insistir num ponto: que entre o discurso psiquiátrico contemporâneo e o discurso psicanalítico lacaniano há, sobre a melancolia, uma incomensurabilidade que nem a clínica nem o cinema podem encobrir.