Length4h 5m
About this audiobook
Registro é a obra de estreia do escritor Roraimense João Ponciano. É um resgate fantástico da sua trajetória como técnico agrícola num vilarejo recém-fundado, recém-desbravado. Fala da vida simples, do trabalho em harmonia, da batalha em busca do progresso para uma cidade. Aborda, também, a realidade e a estrutura dos colégios agrícolas nos anos 60 e 70, com sua excelente estruturação e formação, além do valioso trabalho de extensão rural, formando jovens para essa atividade, para a produção de alimentos, algo fundamental à vida.
Audiobook details
GenreOther, Spirituality and Religion
Length4 hrs 5 mins
Narrated byListen with 1,000+ voices
FormateBook with Audio
Publish dateSep 12, 2017
LanguagePortuguese
Table of contents
1Escrever o livro Registro (Um varejo de mim), é ter o passado na palma da mão, é proporcionar que alguém possa ler minhas lembranças e dividir comigo essa terapia prazerosa, capaz de nos rejuvenescer. É, também, uma maneira de manter-me em forma de corpo e de espírito a fim de que o pijama que visto não seja o peso da minha solidão.
2PRIMEIRA PARTE – A FASE ADULTA
3SEGUNDA PARTE – A FORMAÇÃO
4UMA CLAREIRA LITERÁRIA
5Por Carlos Eugênio Rêgo, poeta piauiense.
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6QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ
7Como exigência legal das empresas e segurança dos profissionais da categoria, os técnicos agrícolas em toda federação brasileira já têm os registros de seus sindicatos e associação na FENATA (Federação Nacional dos Técnicos Agrícolas).
8Na década de 60, o que existia em minha cidade (Boa Vista-RR) eram colégios dirigidos por religiosos da Igreja Católica que ofereciam ensino básico para meninos do interior, visando a uma formação profissional em marcenaria, carpintaria e torneiro mecânico, também funcionava um centro de estudo em área rural, com modelo de internato, em região estratégica de acesso e de demanda para atender os jovens que moravam nas adjacências das regiões indígenas das serras de Uiramutã, Normandia e Pacaraima.
9Para a sobrevivência dessas escolas, diante de um tempo sombrio que atravessa o ensino brasileiro e dos reflexos da crise que paira sobre o nosso país, é necessário primar pela formação desses profissionais, buscando parceria com instituição ligada ao agronegócio e aos centros de pesquisa, sem deixar de se aproximar da necessidade de assistência técnica no campo e a formação qualificada das escolas, uma vez que o ensino médio brasileiro tem por hábito preparar o jovem para o vestibular ou para as linhas de montagem das fábricas. Poucos são preparados para os horizontes da vida no campo.
10Essa preocupação com o alinhamento das escolas técnicas é para garantir o avanço da ciência agrária a outras demandas da agricultura e do comércio. Todavia, para o que se desenha no futuro com relação aos pedidos de socorro do campo, exige-se a nossa contrapartida em como fazer para evitar que terras férteis sejam engolidas pelo latifúndio. E na esteira dos acontecimentos, o papel formador das escolas agrotécnicas não pode ficar fora da visão estratégica do governo.
11Toma-se como exemplo o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) destinado à formação de profissionais, com repasse de recurso aos municípios em que seus gestores parecem gostar de levantar paredes de edifício espelhadas para abrigar cursos profissionalizantes com bastante conforto, enquanto as escolas agrícolas abatem seus animais de serviço para sobreviverem. Parece que não é atrativo ficar trancafiado por dentro de um muro e trabalhar pela comida enquanto estuda para fazer um curso com a mão na massa e os pés no chão. É por isso que, ao se discutir a fome no mundo, esse pequeno detalhe não pode ser esquecido.
12Com dois baldes de plástico, transportávamos água para jogar nos vasos e lavar os banheiros. Logicamente, entre uma viagem e outra, um pulinho no rio não fazia mal. Mas tudo muito rápido, pois tudo era vigiado e a punição era trabalhar na horta, como castigo. Sinto saudade ao ver alguma foto que me faz lembrar o colégio, principalmente as que mostram a escadaria que, diariamente, eu subia e descia, independentemente de estar ou não na escala. O rio era uma ferramenta de socialização.
13Ainda falta o apito final, o último apito do dia, quer dizer, da noite. Ele chega para o toque de silêncio. Mas, enquanto a noite não chega, a gente estica o dia com infindáveis partidas de futebol, as famosas peladas.
14Sempre disputávamos torneio interclube. A escola, aliás, tinha dois grandes times que não deixavam a desejar aos clubes da cidade. Diga-se de passagem que, para as estrelas do futebol, havia um tratamento especial, embora a direção tentasse esconder.
15A noite era dos boêmios. Não era difícil encontrar uma roda com violão para afastar o banzo de casa.
16Hoje, junto com esses garotos, misturam os filhos de empresários, de comerciantes, de funcionários públicos. Isso acontece porque tem crescido a demanda de postos de trabalho no campo, para a mão de obra especializada. As instituições afins formam contrato com as escolas oferecendo laboratório, estação de pesquisa e certamente admite o aluno capacitado.
17Preciso mencionar um fato ocorrido com uma colega da minha cidade, que estava comigo. Ela teve um problema de saúde. Não se descobria a causa de seguidos passamentos.
18Uma das grandes preocupações dos médicos sanitaristas era o aparecimento de doenças oriundas de instalações inadequadas, como alojamento pequeno. Talvez tenha sido essa a causa de ela nunca ter voltado.
19O cara não podia entrar no alojamento, que logo arrastava o violão de baixo da cama para os começar os ensaios.
20Na fila do refeitório já dava para ouvir alguém assobiando a música.
21Não é fácil de narrar
22Por isso muita gente
23Vive a protestar
24Do meu jeito de viver
25Do meu jeito de falar
26Você mesmo certo estar
27Não importa se a jaqueta
28Esteja limpa ou esteja suja
29Quando ando por ai
30De mochila e calça Lee
31Aonde chego não demoro
32Nunca peço nem imploro
33Que favor faça pra mim
34Vou vivendo mesmo assim
35Sem comida, sem bebida
36Olho o céu como olho a vida
37Tenho Deus no coração
38Esta é minha canção.
39Esse episódio serviu de exemplo para identificar a falta de entrosamento entre parceiros.
40Além da falta de experiência para lidar com situação semelhante, acho que o responsável pela escala costumava formar a dupla baseado no critério de um gordo e outro magro, ou quem, sabe um inteligente outro remediado (pra não chamar de burro).
41No caso do japonês, sua vocação era para o comércio. Creio que ele nunca, em sua vida, tenha abatido um frango e seu parceiro.....piorou!!!, Até porque, na poesia, boi se sangra é com a alma e com palavras.
42Depois de toda essa epopeia em busca de uma certificação profissional, que eu iniciara aos catorze anos de idade, fecho este rosário de angústia e luta com a crônica do meu eterno regresso.
